janeiro 2007

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“E aí, no ano 2000, haverá máquinas que farão tudo por nós. E trabalharemos quatro horas por dia, e teremos férias de três meses.” Pelo menos, era assim que pensavam meu pai e os amigos da faculdade, lá na década de 70. Acho que alguma coisa deu errado.

A jornada de trabalho continua a mesma desde então. E, arrisco dizer, com um volume de trabalho muito maior. Um trabalho que tomava uma semana pode ser feito, hoje, em um dia – e, no resto do tempo, ao contrário do que acreditavam meu pai e os colegas, não existe descanso. Existe mais trabalho.

“Ninguém está aqui trabalhando por hobby, está?”. Não. Ao se tornar passatempo, o trabalho vira diversão. E, definitivamente, isso não tem nada a ver com sair de casa de manhã e voltar ao fim do dia, reclamando da vida. Lembro de uma reportagem que tentava ensinar aos pais como transmitir aos filhos a sensação de que trabalhar é bom. Como se isso fosse possível.

Encontro a definição – não sei se a mais correta, mas, pelo menos, a mais sincera – para “trabalho”, feita pelo Grupo Comunista Internacionalista, da Bélgica: “o trabalho é a negação da vida, da alegria e do prazer humano. O trabalho faz do homem um estranho para si mesmo, alienado da humanidade como um todo.” Pegar no pesado sempre foi coisa de escravo mesmo, até que apareceu alguém com essa conversinha de que “o trabalho enobrece o homem” e incutiu no ser humano a sensação de culpa por não estar fazendo nada. Ou pior que isso: de estar fazendo alguma coisa que dê prazer.

Tive um emprego, certo tempo atrás, em que eu sorria e dizia “vou pro trabalho”. Não, aquilo definitivamente não podia ser um serviço sério (e era). Mas fui educada para saber que o mundo está cheio de gente lutando, estudando, trabalhando, e que eu tenho que ser melhor que eles. Passo várias horas por dia trancada num escritório, fazendo uma segunda faculdade e ainda vou apostar num mestrado, só para continuar brigando – uma briga que nem sequer fui em quem comprei. Várias vezes eu me pergunto se isso tudo vale a pena. Se não era melhor aproveitar esse tempo para viver de verdade.

“Mas vai ser bom pra você, profissionalmente, esse tempo que você está gastando agora”. E o que eu faço com esse eu não-profissional, que tem vontade de tomar sol deitada na grama e ficar vendo o tempo passar com cabeça tranquila, sem se preocupar se eu devia estar aproveitando esse tempo fazendo algo realmente útil? Afogo no baldinho?

Alguma coisa ainda há de restar disso tudo. Espero não ser o arrependimento.

lerê, lerê…

{ Sing a song }

Tem coisas que só Ray Charles pode fazer. Como me botar pra escrever esse tipo de coisa.

é, tudo o que não podia acontecer está acontecendo(de novo)
eu continuo com vontade de dizer que queria você aqui comigo
mas, ah,
só o que eu consigo dizer é um monte de frases bobas sem sentido
não devia ser tão difícil, eu aqui e você aqui comigo

e a vontade de largar tudo e ir te encontrar de pijamas às três da manhã
porque, de repente, você podia dizer que gosta
de eu aparecer às três, de ficar comigo, de mim
e me abrace e diga que teve medo
quem sabe aí eu não acorde nunca
e ray charles nunca pare de cantar

aproveitem que vocês têm o ano todo pra esquecer isso.

lalalá…