novembro 2006

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{ Férias, pelamordeDeus }

texto publicado originalmente no jornal hora h, em 17/11

Ela não sabe. Só isso. Às vezes fica parada, olhando a parede, o relógio vermelho teimando dizer que o tempo insiste em passar. Quer fugir, mas não sabe pra onde. Quer casar, mas não sabe com quem. Quer ficar rica, mas não sabe como. Quer comer, mas não sabe o quê. Então fica ali parada, fitando a parede. Até à noite.

Novembro é o pior mês do ano: aquele em que está perto das férias, mas ainda falta muito. Em que se planejam as viagens de fim de ano, mas não se sai do lugar. Em que se quer mandar tudo pro espaço e sair pelado gritando na rua. Mas não seria aconselhado, ela acha.

Podia gastar esse tempo lendo, mas é incapaz de se concentrar. Lê uma linha, pula duas, come três palavras… além disso, dúvida em decidir qual livro ler. Há tanta coisa para ser feita – mas o quê, exatamente, ela não lembra.

Toma banho porque deve ser tomado, dorme porque já é noite, vai trabalhar porque já é dia. Vida besta mesmo. Que vai vivendo só porque também não decidiu se vale a pena continuar vivendo ou não.

Pensa em salvar o mundo, mas lembra que não conseguiu pagar o telefone do mês passado. Ai ai. Que duro é não saber. Na verdade, ela se pergunta se já não conhece as respostas, só tem preguiça de parar de olhar para a parede. Vai saber.

Trabalha, estuda, trabalha, estuda, trabalha, liga a tv, vê a novela. Agora tem mais canais pra assistir, mas às vezes não sabe o que escolher entre tantas opções e acaba vendo o de sempre. Êta vida besta.

Faz mais de ano que ela escreve pra um jornal, mas não sabe de verdade se tem mais do que três leitores. Às vezes pensa em desistir de tudo e vender bijuteria na praia. Outras vezes, decide vender o carro e dar entrada num apartamento, tornando-se uma investidora do ramo imobiliário. Ela não sabe o que quer, definitivamente.

Para não matar os leitores de tédio, para não enlouquecer totalmente e para garantir um fim de ano relativamente saudável, ela vai tirar férias. Quem sabe, assim, ela conheça um milionário pra casar, fique rica e fuja para a Indonésia, onde comerá pratos exóticos. E aí patrocine projetos para acabar com a fome no mundo e decida ver a telejornais em que ela apareça dando entrevistas sobre seu trabalho como salvadora do mundo.

Mas se nada disso acontecer e se as pessoas desse jornal permitirem, dia 22 de dezembro ela está de volta para desejar um feliz Natal. Por hora, ela vai lá ter mais tempo para olhar a parede.

***

A quem interessar possa, esta que vos escreve continua (ou vai tentar, pelo menos) a escrever no blog www.cha-tice.blogger.com.br. Na pior das hipóteses, dá pra reler uns textos e descobrir uns não-publicados. Até daqui a um mês!

não dá pra dizer que eu não avisei!