outubro 2006

You are currently browsing the monthly archive for outubro 2006.

– Desculpe, senhor, mas isso não é permitido.

– Ahm? Como assim?

– É proibido beijar no salão.

Isso aconteceu num café, em Curitiba. É, num café, não numa igreja, nem numa escola infantil. Um lugar de gente que toma essa bebida cheia de cafeína, por vezes com álcool. Um ambiente onde, reza a lenda, reúnem-se pessoas inteligentes e intelectualizadas.

Mas é proibido beijar no salão.

Porque, vai ver, os freqüentadores de cafés são ranzinzas o bastante para se incomodarem com casais felizes que se beijam. Como se eu fosse uma fumante, invadindo narinas alheias com fumaças de amor e felicidade.

(Em tempo: eu não fumo e não sou lá muito fã de cigarro, mas acho uma maldade proibirem as pessoas de fumar num lugar “aberto” como um shopping.)

Alguém pode dizer que um café não é um lugar para fumar, nem para se beijar, é um lugar para beber e comer e conversar. E onde é lugar de beijar? A cama é feita para dormir, o mercado é para fazer compras, o parque é para fazer exercícios, a escada e o elevador são só para chegar ao próximo andar. Se o banheiro é para fazer pipi, o colégio e a universidade são só para estudar, onde diabos eu beijo o meu moço?

Aliás, sugiro placas informativas nos estabelecimentos, com uma boquinha coberta por uma listra: é proibido beijar neste local. E a criação de beijódromos, porque, afinal de contas, em algum lugar as pessoas normais têm que se beijar, não tem?

Bom, acho que não, porque é proibido beijar no salão. E na Universidade, visto que recebi o mesmo aviso no pátio da primeira universidade tecnológica do país. Não pode namorar na escola. É, engenheiro tem que ser frio e calculista, nada desse negócio de ficar se beijando no intervalo (imagino o que aconteceria no caso de um beijo homossexual como o que aconteceu na USP, tempos atrás).

Já esperando os comentários alheios de que eu deva realmente ser muito escandalosa nos beijos, aviso que não. Não falo de um beijo homossexual que possa chocar a multidão mais conservadora. Nem de um daqueles beijos escandalosos dados entre duas pessoas sozinhas numa mesa, que acabam na frase “vamos pra um lugar mais reservado”.

Eram cinco pessoas na mesa. O beijo durou alguma coisa como 30 segundos. As quatro mãos envolvidas estavam visíveis, na linha dos ombros. E, ao fim, recebemos o aviso. Ficamos tão surpresos que acatamos.

E então eu recebo o vídeo do “Free Hugs” e do carinha que saiu na Paulista com uma placa “dá um abraço?”. Talvez seja isso que as pessoas em Curitiba precisem. Abraços. Carinhos. Calor humano.

E permitir beijos em cafés e universidades.

tudo o que você precisa é amor…

– Uma taça desse bordeaux mais barato e um croissant, por favor.

Ficou sentada à mesa posta na calçada em que ela tanto tropeçava. Coque feito no topo da cabeça, cachecol descendo pelo ombro, quase tocando o chão. Acendeu o cigarro e deu uma tragada profunda, como se absorvesse toda a quietude da manhã sem cor. Para soltar a fumaça em seguida, liberando também um pouco da sua própria coloração cinza.

Era uma mulher blasé. Que não conseguia entender os grupos de adolescentes que passavam lá além, sorrindo e fazendo balbúrdia, mas longe o bastante para não serem ouvidos. Optava por não ver os casais apaixonados que cruzavam sua frente, simplesmente como se não existissem. Olhava através das coisas e das pessoas, com uma cara de desdém que nunca se desfazia.

O garçom deixou a refeição sobre a mesa. Se é que aquilo podia ser chamado de refeição. Passou a engolir o que estava à sua frente, sem prazer e sem fome. Pessoas blasé não precisam de alegria nesse tipo de atividade corriqueira, assim como não precisam para mais nada na vida. Ela não se lembrava da última vez em que dividiu a cama com um homem – não que fizesse muito tempo, mas simplesmente porque não merecia ser lembrado.

Seguiu mastigando a massa folhada do croissant de pastrami, sem se recordar que era seu sanduíche preferido – porque foi o que comeu na primeira vez em que foi ao cinema com seu pai. Continuou tomando vinho, esquecendo que um bordeaux, embora mais vagabundo, tinha sido a bebida daquele encontro. Aquele, que seria o melhor da sua vida se ela realmente se emocionasse com alguma coisa. Ela não lembra de como tudo começou. Não porque estivesse bêbada demais (ela nunca fazia nada demais), nem porque tivesse passado por uma lobotomia. Era só uma mulher blasé.

Uma Catherine Denéuve, deslizando pela rua com seus óculos escuros gigantescos e o cachecol balançando com o vento. Uma pessoa com controle total e absoluto de seus sentimentos, até porque não os tinha.

Caminhou pela rua sem prestar atenção a nada, sem se ater ao pequeno cachorro que quase lambeu sua bota ou ao guardador de carros que lhe ofereceu uma florzinha caída de uma árvore. Entrou em casa sem se importar com o vizinho que a espiava pela fresta da porta, sem se perguntar de quem seria aquele envelope vermelho na sua caixa de correio.

Deixou as chaves e a correspondência sobre a mesa e foi ao banheiro. Abriu a porta do armário atrás do espelho. Ufa. Ainda estava lá.

Num pote de vidro com formol, seu coração. Bem guardado, para o momento em que se permitisse, pela primeira vez, perder o controle. E viver de verdade.

(suspiro)

Introdução:

Clipe de guerra medieval. Cavalos, armaduras. Muito pó. Um rio (sempre tem um rio nas minhas brigas). Não há sangue! Exclamação, exclamação, exclamação.

Corta.

Um bar, uma mesa de sinuca. Quatro bolas na mesa, o taco derrubando uma delas caçapa abaixo. O jogo continua. Reticências. Três delas, como os três pontos que a compõem.

Corta.

Parte 1:

Um lugar qualquer, um dia qualquer. Mundo real, cena 1.

Vamos fazer um acordo. Eu finjo e você faz que acredita. Assim mantemos essa convivência pacífica que faz de nós cidadãos normais e amigos.

Não é mais como antes. Isso não. A magia se desfez depois de algum truque malfeito em que percebi a verdade – não era mágica, era só um disfarce. Ilusionismo, era assim que os profissionais chamavam. Mas eu finjo que acredito e você finge que não percebeu.

Porque eu não sei se é pior mentir dizendo que eu te amo ou que eu te odeio: e as duas são grandes mentiras. Ainda faz alguma diferença você estar ao meu lado, mas eu ainda não entendi exatamente qual é.

Mas finjamos que nada aconteceu, nunca. E que os dias sempre foram felizes – mas não tão felizes quanto aquelas horas. Vamos enterrar tudo como se nada tivesse acontecido, está bem pra você?

Ponto de interrogação, mas, na verdade, tudo o que ela queria era um ponto final.

Parte 2:

Um lugar qualquer, um dia qualquer. Mundo real, cena 2.

Não, para mim não. O que você não entende é que eu nunca te enganei. Não, deixa eu terminar. Eu nunca prometi nada disso que você esperou. Você se iludiu por sua conta. Você inventou a magia, as cartolas e os coelhinhos. Eu nunca disse que ficaria com você, disse? Desde o princípio. É só a química, sabe como? Eu não consigo me controlar perto de você – mas nunca seremos namorados.

Só não ache que é só sexo. Não é. Eu gosto de você…

Três pontinhos – que ele adora e ela não agüenta mais. Nunca mais.

Parte final e pedido encarecido:

Vários dias, várias vezes. Mundo à parte. Cena final.

E é assim que se termina um relacionamento sem terminar. Eu não gosto de reticências, apesar, apesar de ter deixado algumas poucas durante a vida. Sempre preferi os pontos finais, muito mais incisivos. Mais diretos. Se você quiser, depois a gente volta a construir uma frase. Nova. Ou um texto todo. Mas começando em um novo parágrafo.

Agora? Ainda há muitos atos e capítulos e páginas e histórias e letras a serem escritas. E você morreu, pelo menos por enquanto. Permito uma breve reaparição após o capítulo 14 – só pra eu poder te matar de uma vez.

Por enquanto, por favor: permaneça morto. A história agradece.

Não aceitamos vaias, obrigada! :)