setembro 2006

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“O descanso é coisa boa ….para os mortos.” – Thomas Carlyle

Clic. Liguei o abajur. Já passa das três da manhã e – muda, vira, rola – o sono insiste em espiar da sacada. Está lá, fazendo micagens enquanto grito pra parar de palhaçada e entrar logo. Não adianta.

A gata, ao meu lado, dorme tranquilamente. Observo a barriga subir e descer, acompanhando o ritmo da respiração. Eu nem respirava mais. Só sabia que o ar entrava em meus pulmões porque continuava viva.

Droga. Quebro mais uma unha. Impressionante a falta de capacidade em conseguir pegar no sono. A cadeira de balanço, ao lado da cama, se movimenta sozinha. Mais um dos fantasmas que insistem em fazer visitas. Eles morrem e resolvem tomar chá de madrugada no meu quarto. Pelo menos esse estava quieto – não gosto das grandes festas que eles promovem sobre a minha cama.

(Lá no céu, São Pedro precisa vigiar melhor seus hóspedes. Ou no inferno, sei lá. Achei que havia um controle de entrada e saída de habitantes. Puá. Não existe burocracia no pós-vida – ou pós-morte, sei lá.)

O sono resolve bater um papo com o nada que ocupa a cadeira de balanço. Eu mereço. Será que dá pra vocês calarem a boca que eu estou tentando dormir?

Clic. Desligo o abajur. O blablablá ao lado continua. Malditos. Quando eu me for desse mundo, terei uma conversa muito séria com o responsável das almas no além.

Silêncio, ufa. Finalmente ficaram quietos. Agora só falta o sono se chegar. Fecho os olhos, respiro fundo…

Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tudo incomoda. Até a cadeira de balanço, agora vazia e parada. Os mortos insistem em reviver e voltar ao lugar de onde vieram. Talvez porque nunca pertencerão realmente ao meu quarto.

A gata continua dormindo. Os passarinhos começam a cantar lá fora. A cadeira de balanço se mexe, uma última vez. Ele sempre se vai quando o dia amanhece.

Triiiiiiiiiiim. É hora de acordar e voltar ao mundo em que as pessoas existem de verdade. Pessoas que aparecerão durante o dia e irão embora antes do amanhecer. Por favor, tragam seu próprio chá. E falem baixo, por favor. Estou tentando dormir.

***

Teoria sem sentido do dia: não que o vizinho de cima tenha o hábito, mas vocês já tentaram ouvir música escocesa? Gaitas e mais gaitas de fole, um sonzinho insuportável de se ouvir por mais de dois minutos seguidos. Minha vizinha de mesa no trabalho escuta. Deve ser por isso que o uísque dos escoceses é o melhor…

Saiam! Saiam!

{ Run, Forrest… run! }

Cuba. Portugal. Chile. Pra onde você iria, agora, se pudesse?

Parecia um bom dia para viajar. Gostava de dias assim, em que acordava e pensava que podia estar na estrada. Então, entrava no carro e dirigia. Nem sempre tinha rumo. Nem sempre queria chegar a algum lugar.

Queria conhecer Cuba. Desde que começou a ler Pedro Juan Gutierrez e descobriu um mundo diferente do que ela conhece. Se pudesse, não acabaria essa frase e iria pra lá. Mas não pode, há coisas a fazer aqui – coisas que ela inventou, é verdade. Mas não pode ir a tão longe agora. Daqui a um tempo sim.

África do Sul. Dinamarca. Tailândia. Aquela água cor de bolinha de gude, que nunca imaginou sair daquela esfera de vidro. Um sem fim de mar, todo colorido, todo transparente. Vai entender.

Nem sempre ela sabia pra onde ir, na verdade. Não só quando escolhia um destino ou uma rodovia para dirigir. Ligou o carro. Olhou o cabelo penteado refletido no espelho retrovisor. É bom curtir o caminho. Mesmo que não se saiba aonde chegar.

Aumentou o volume do rádio. A liberdade de ir a qualquer canto do mundo, desde que quisesse (e roubasse um banco). Odiava quando completava as frases de maneira a trazê-la de volta ao mundo real. Gostava mesmo era de pensar que podia fazer o que quisesse, inclusive mudar o mundo. E pessoas.

Não é preciso motivo pra fazer alguma coisa, mas ela queria conhecer uma guerra de perto. Haiti. Líbano. As pessoas se transformam em tempos difíceis. Queria conhecer um pouco da dor, aprender com quem sofre tanto. Ajudar a contar uma história. Fazer parte de uma.

França. Inglaterra. Itália. Ver de perto se é verdade que Paris é uma “merde”, como chegaram a dizer. Aquele tempo todo de história logo ali, ao ar livre. Tanta gente diferente, tomando sol de biquíni no parque – tomando sol sem biquíni no parque.

Dirigiu durante toda a tarde. Até o sol cair e ela pensar que, lá no Japão, o amigo devia estar acordando para trabalhar. Assim como a moça que lê os textos dela e que ela não conhece, mas que tem um sobrinho muito fofo.

Afeganistão. Namíbia. Austrália. Qualquer lugar bem distante daqui. Dirigindo, foi o mais longe que o tempo permitiu. Foi – e voltou. Porque estava presa aqui (e era por isso que queria tanto fugir).

Queria ir pra muito longe, pra esquecer o que está muito perto.

***

E só pra eu não me esquecer de porque eu gosto tanto de Los Hermanos: “mas não me peça para amar outra mulher que não você…”.

(às vezes, a gente ama tanto que dói).

Ou, em outras palavras: fuja, louco!