agosto 2006

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Oi oi! Tudo bem contigo, tio?

Aqui tudo em ordem. Deve estar quase tão quente quanto aí. Mentira. Tem gente morrendo de calor aí na Europa – mas o povo morre por muito menos aí (gente chique, não pode ficar suando). Em compensação, a lua cheia daqui está de tirar o fôlego. Afe! Dá até vontade de parar no meio da rua e começar a uivar. Perdeu, perdeu. O Flávio até fez umas fotos dia desses, acho, mas eu não vi como ficaram.

Finalmente fui para o sétimo período do Cefet. O último de aulas. Parecia que não ia chegar nunca, credo. Contei minha idéia do trabalho de conclusão de curso pra professora de História do Design, que comprou fácil a idéia. Disse que, muito provavelmente, vou me ferrar fazendo. Tudo bem, sempre curti mais as coisas que parecem impossíveis. Veremos se começo com e-mails tímidos pra uma universidade lá em Havana – e espero que El Comandante resista até que eu vá pra lá…

Como está Paris? Torre Eiffel, croissant, cafés… já vi tudo. Bidê, maître, abajour, soutien, mon amour, ballet, tricot! Ah, não vou gastar todo meu francês com você. Mas estou aprendendo a fazer tricô, parece bom pra não pensar em coisas que não dá pra parar de pensar. O problema é que de vez em quando você esquece de não pensar e perde um monte de pontos, tem que desfazer tudo. Droga. Mas não desisto dos meus talentos domésticos, especialmente agora que aprendi a fazer arroz branco direito.

Tá, esse e-mail não faz sentido. Eu também não faço. É que já cantam os moços do Los Hermanos, “não te dizer o que eu penso já é pensar em dizer”. Que seja. Não ia dizer mesmo, mas pensei.

E só pra não dizer que eu não disse nada do que eu pensei: saudade de você.

***

Estou aprendendo a fazer tricô. Eu sei lá porque diabos. Talvez eu queira tricotar sapatinhos de lã pros filhos que eu não tenho. Só espero não acabar fazendo roupinhas pra cachorros.

Eu nem queria pensar nesse assunto. Mas, nos últimos dias, várias pessoas que eu adoro me falaram sobre o medo de ficarem sozinhas. Sobre a possibilidade de simplesmente não terem alma gêmea perdida no mundo. Ou, como disse uma amiga, “o homem da minha vida existe, só que está na Groenlândia. Estou esperando que ele derreta”. O meu deve estar junto – e é por isso que somos a favor do aquecimento global.

Tá, falando sério. Eu estou aprendendo a fazer tricô. E não vou me casar com o primeiro moço que eu possa apresentar à minha mãe, só pra provar que eu sou capaz de arranjar alguém. E que se dane o que as pessoas achem de mim.

Eu faço tricô, e isso me basta agora.

E em breve terei um cachecol pra usar ano que vem!

Ai ai. Férias. A vida é muito melhor quando se pode acordar às 9h30 da manhã, tomar banho com calma e fazer “aquele” café da manhã. É maravilhoso deliciar-me com torradas e suco de maracujá enquanto assisto a desenhos na televisão ou vejo as crianças do vizinho brigando, sob a tentativa exasperada da mãe em impedir um fratricídio, enquanto penso “benditos sejam o anticoncepcional e a camisinha”.

Então, sorrindo, eu me levanto, vou até a cozinha pegar um pouco de café e vejo que da torneira da pia, curiosamente, escorre um filete meio amarronzado. Uma análise mais profunda e eu percebo que, sim, tem um vazamento na minha cozinha.

Tudo bem, nada acabará com aquela bela semana de férias. Nem o marceneiro que ficou de vir arrumar o móvel e ainda não deu as caras. Não, porque temos bolachinhas amanteigadas e sol brilhando lá fora.

Sim, sim. Férias. Esse período maravilhoso que… argh. O gato acaba de vomitar no meio da sala porque, afinal de contas, eu estou de férias e não escovo os pêlos do bichano há dois dias. Com o pano de chão em mãos para limpar a bagunça, ajoelhada, começa a tocar a música que lembra aquele cara que eu quero esquecer.

Eu começo a amaldiçoar esse maldito tempo livre que tenho pela manhã.

Mas nem tudo está perdido. Na tentativa de recuperar uma semana de férias relativamente decente, proponho o Manual de Invisibilidade de Problemas: como fingir que nada atrapalha sua vida em cinco passos práticos.

1- Se você não vê, é porque o problema não existe.

Esconda as contas em uma gaveta que você nunca abre. Não olhe o extrato do banco. Não leia revistas com conteúdo realmente informativo, nem assista a telejornais. Seja um alienado de todos os problemas do mundo. Se puder, nem leia seus e-mails, porque muitos deles são problemas via internet.

2- Evite pessoas que são problemas.

Não se encontre com elas. Não atenda seus telefonemas. Apague-as do msn. Ok, esse tópico poderia estar incluso no item 1 deste manual, mas aí eu nunca conseguiria completar 5 passos para fechar esse guia.

3- Se o problema te persegue, esconda-se.

Alguns problemas, mesmo escondidos em gavetas, gritam. Sugestão: leia um livro ou veja um programa idiota de tv. As duas coisas mantêm a mente ocupada em alguma coisa que realmente não são os seus problemas – na pior das hipóteses, são problemas dos outros.

4- Você fez tudo certinho, mas o problema saltou exatamente à sua frente.

Abstraia. Você não viu nada, isso é tudo coisa da sua cabeça. Sugestão: se não conseguir esquecer o que viu, ouça música barulhenta a um volume altíssimo – o suficiente para que você não consiga concatenar as idéias. Se morar em prédio, sugiro que use fones de ouvido. Você pode fingir não ter problemas, mas não precisa arranjar novas encrencas.

5- Você não tem problemas.

Lembre-se disso.

E ai de quem disser o contrário!

{ Fugindo da chuva }

Corre, corre, corre. Sai correndo pela cidade cinza que insiste em lembrar tanta coisa. Era uma noite como essa, só que mais quente. Tão cinza quanto. Tão vazia quanto.

“Você acha que dá pra esquecer tudo? Como se nada disso tivesse acontecido um dia?” Ela se manteve calada. Preferia acreditar que eram sonhos e pesadelos, revezando-se noite após noite na cama quente. E que uma hora acordaria, pronta pra descobrir que isso definitivamente nunca existiu.

Mas agora, corre, corre, corre. Debaixo de chuva. A luz do semáforo ilumina os pingos de chuva. Luz vermelha, para lembrá-la que é preciso parar. Mas ela não pára. Corre o mais rápido que pode, antes que a chuva a alcance. A música toca na cabeça, o tempo todo, num looping infinito. A música que ela ouviu naquela noite, tão cinza e vazia quanto essa – só que mais quente.

Foge, antes que as memórias a alcancem. Não quer ser inundada por essas lembranças que, como a chuva, correm atrás dela.

“A questão, minha cara, é que razão e sentimento são opostos. Isso você sabe, e todos os teóricos concordam. Você pode até decidir o que fazer. Mas não há como fugir do que aconteceu.” Não há. Ótimo. Então o esforço todo é à toa?

Continua a correr. Escuta, agora, o apito do trem. Vem em direção a ela, de maneira que ela não pode impedir. O som se mistura à música que não toca em nenhum lugar, a não ser dentro da cabeça dela.

Ofegante, o coração saindo pela boca. Encontra pelo caminho um realejo. Um palhaço, um malabarista. Que diabo é isso no meio do caminho, em plena noite cinza? Corram, a chuva vai pegar vocês também. Não estão vendo?

Corre, corre, corre. Quer chegar em casa, se enrolar na manta e tomar um café quente, como se nada disso nunca tivesse acontecido. Antes que a chuva chegue. Antes que as lembranças a peguem de jeito e a arrastem como numa correnteza para um lugar onde não há como se apoiar.

A luz amarela em sua direção. A chuva logo atrás. O semáforo vermelho pisca, alternado, indicando que vem trem por aí. O apito ensurdece, a chuva logo atrás. Corre, corre, corre. Não pode parar, ou a chuva a alcança. Um pé no trilho, a luz do trem na cara.

É preciso parar, antes que o trem passe por cima. Ela arrisca e aumenta o passo. Antes que consiga alcançar o outro lado do trilho, o palhaço a puxa e ela fica. A um palmo do trem. A chuva a alcança e ela ouve um estrondo.

As lembranças. Atropeladas, moídas no trilho. Ela senta, ao lado da ferrovia. O palhaço, aquele que é o mais triste dos seres, sorri pra ela – que, tão triste quanto, retribui.

chuááááá…