julho 2006

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{ … }

Era engraçado. Ela se pegava parada, olhando pra tela do computador, esperando fazer a vida fazer sentido. Esperando o texto se escrever sozinho. Esperando as coisas simplesmente se resolverem.

Não era do feitio dela. Era forte, todo mundo dizia isso. Mas às vezes cansa. Especialmente quando tudo parece bem, ela acorda de bom humor e ri e conversa, mas alguma coisa ainda incomoda.

Uma coisa na qual ela prometeu dar fim. E que insiste em gritar que ainda está ali. Droga. Pior que sujeira em copo de bar. Bares que, aliás, ela se prometeu voltar a freqüentar pra não virar essa tia velha e saudável.

Ugh.

suspiro…

Sempre achou que sua estação preferida fosse o inverno. Até se mudar para uma cidade onde, diziam, era inverno sempre. Dias frios e cinzas. Pessoas cinzas e frias.

Pensou que sua cor preferida era o preto, até que um dia começou a usar verde. E azul. E agora gosta muito do rosa. E pintou as paredes do apartamento de cores bizarras, como verde limão. Seu estilo de música preferido era a MPB das antigas, bossa nova, aquela galera legal como Baden Powell, Carlos Lyra, Vinicius de Moraes e Tom Jobim. Hoje, apesar de continuar gostando dos caras, descobriu que curte mesmo é indie rock. Mesmo que cometa deslizes e se pegue ouvindo muita música ruim, de vários estilos, só porque a faz sorrir.

Aprendeu que sabe fazer uma mudança de tom na música do Los Hermanos que deixa o companheiro de trabalho dela com inveja, mesmo que não seja lá muito afinada. Mas já perdeu a vergonha de sair cantarolando no meio da rua, mesmo que a chamem de maluca.

Pensou que as pessoas cinzas e frias da cidade onde morava eram todas assim – cinzas e frias. E descobriu gente vermelha, colorida, quente e pulsante. E se apaixonou por várias delas. E até por uma delas, várias vezes – mesmo que ele, como ela, também não fizesse parte da fauna natural da cidade.

Iludiu-se achando que era capaz de esquecê-lo só porque ele foi parar muito longe. Mas não, ele continua lá, ocupando aquele espaço dentro dela. Aprendeu a dar valor às intuições e descobriu que se ferrar faz parte do processo de estar viva.

Durante toda a vida, sempre procurou paz e sossego – e, quando encontrou, morreu de tédio. Mas limitou o tamanho das encrencas em que entra hoje, porque ainda existe aquela encrenca-mor que ocupa uma boa parte da vida dela. Mesmo que tenha aprendido a fingir que não.

Caiu a ficha de que nasceu pra ser livre e se prometeu não fazer mais o que vai contra seus princípios, só pra satisfazer alguém. Aliás, provou a si mesma que tem princípios, quando disseram a ela o contrário. Teve a certeza de que a alegria das coisas existe nas menores coisas, mesmo que seja a comicidade das situações em que se mete. Porque, quando a vida é como um seriado enlatado americano, é fundamental aprender a rir – mesmo quando se acorda com o olho inchado, igual a uma bola de tênis.

Não tem mais vergonha das coisas que faz, mesmo que não sejam tão boas quanto gostaria. E se orgulha do que faz bem-feito. Só continua sem responder aos e-mails atrasados (viu, Reynaldo?), mas jura que vai dar um jeito nisso logo.

E, mais que isso tudo, aprendeu que nada disso realmente importa. Porque, amanhã, tudo vai estar diferente mesmo…

(talvez por isso ainda espere que as pessoas mudem…)

{ Insônia }

Vontade louca de tomar um café e fumar um cigarro. E eu nem fumo. Às vezes a vida obriga a gente a querer um café e um cigarro. E dias mais felizes.

Não conseguia dormir, coisa demais pra uma cabeça só. Dinheiro-contas-trabalho-trabalhos-faculdade-e-mais-trabalhos, além daquelas coisas que insistem em dar errado desde o dia em que eu descobri que tudo que eu achava certo, na verdade, estava errado.

E mais do que era capaz de agüentar, recados cretinos no Orkut, e-mails bizarros na caixa de entrada. Gente morta mandando mensagens do além, querendo me provar que isso é possível. Como se fosse possível, também, essa história de amor dar certo. Já escreveu o sábio Nelson Rodrigues: “não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo”.

Não que amasse, não fazia isso há tanto tempo que até já tinha esquecido. Pelo menos, não amava homens. Amava os cigarros que não fumava e o café que bebia sempre, mas que, agora, às 2h30 da manhã, insistia em querer tomar. Deitada na cama, antes de dormir. Contra todas as recomendações médicas.

Mais do que ser contra tudo o que os médicos insistem em indicar, era contra sair da cama quente na noite chuvosa. Ia ficar ali e dormir na marra, mesmo que a vontade de um cigarro me mantivesse acordada. E eu nem fumo. Credo.

Precisava sair. E de cigarros. E de álcool. Talvez as três coisas juntas. Precisava de um pouco de alegria na noite chuvosa que teimava em piscar relâmpagos da janela. Precisava parar de lavar a louça e cozinhar e fazer exercícios e voltar a sair e encher a cara e voltar tropeçando na escada.

Um irish coffee, uma nuvem de fumaça. Uma noitada num boteco esbranquiçado pela névoa do cigarro, escurecido pela falta de luz. E umas doses de tequila. Uma mensagem: “não sei quem é você nem o que você fez com a Letícia, mas eu a quero de volta”.

Eu também.

Dias que pedem um cigarro e um café, mesmo que você não fume. E uma garrafa de vodca, na guia da calçada, vendo o dia amanhecer. Mesmo que você não beba.

Porque eu sou contra preocupações na hora de dormir e em todas as outras horas do dia também. Os dias devem ser felizes com cafés durante a tarde, mesmo que com adoçante. E cigarros durante a noite, mesmo que sem companhia. E companhias durante toda a semana, mesmo que sem amor.

Continua chovendo e a cama continua quente. O sono começa a chegar e os relâmpagos insistem em iluminar o quarto a cada três minutos. Pessoas mortas, vivas e recém-assassinadas. Girando em volta da minha cama me lembrando o quão difícil é dormir quando se precisa de um café e um cigarro.

Até o sono chegar de vez.

ZzzZZzZzZZZzzZZzZ…