junho 2006

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Eu defendo. Todo mundo deveria ter ao menos um dia na semana sem fazer nada. E não falo só de não trabalhar, não ir pra aula e atividades corriqueiras efetuadas geralmente de segunda a sexta (e, às vezes, sábados de manhã). Falo de não fazer nada. Não usar esse tempo fazendo faxina, nem lavando o carro, nem tendo que levar o cachorro para passear.

Um dia totalmente seu, sem obrigação nenhuma, fazendo só o que der vontade – e se der. Assim, você poderia gastar sua noite de sábado dançando enlouquecidamente na balada. Ou dormindo bem quentinho e aninhado na sua cama. Sim, porque, às vezes, há a obrigação social de sair no final de semana e se divertir (mesmo que você não queira e não se divirta). Uma dessas tais obrigações que a sociedade impõe, como manter a cozinha arrumada, casar e ter filhos. Mas não fujamos do tema.

Semana passada, o feriado prolongado. Era muita coisa pra eu fazer. Quer dizer, na verdade não era. Eu só não queria fazer. Tive quatro dias completamente ociosos, enquanto a pilha de afazeres acumulava. Curiosamente, sempre que eu digo “não fiz nada do que devia no feriado”, um movimento solidário me apóia, ao coro de “eu também não”.

Mas as pessoas não estavam felizes. Estavam com culpa de não terem feito nada. Culpa do sistema, da educação cristã, da falta de prozac, sei lá. Mas que isso não está certo, não está.

Proponho, então, o manifesto pelo ócio. Por dias inteiros deitado no sofá, assistindo a filmes e dormindo no meio deles, se isso for o que você realmente quiser fazer. Por tardes deitado ao sol, olhando o céu e as formiguinhas carregando migalhas (as formigas também podem ter um dia de ócio, se assim desejarem).

Um movimento pelo direito de não fazer absolutamente nada, sem culpa e sem pensar no que deveria ser feito.

Todos os cidadãos devem ter o direito de passear vagarosamente no shopping, sem medo de perder a hora da sessão de cinema. Devem lamber seus picolés na velocidade que quiserem, sem se preocupar se está derretendo e pingando na blusa. Devem comer quando têm fome, sem se ater a horários pré-determinados para realizar refeições, bem como não obedecer a horários de dormir e de sair da cama.

Aliás, defendo o direito do cidadão não levantar da cama, se esse for o seu desejo. E passar o dia entre travesseiros, lençóis e cobertores.

Manifesto-me pelo direito de não correr no parque, de não ir ao mercado e de não cozinhar. De não ir ao boteco encher a cara com os amigos, de não ler e de não passar os dias namorando ou indo à festa do primo de cinco anos.

Pelo menos um dia na semana.

Naaaaaaaaaaaaaada…

{ Fábula do Hexa }

“A Copa do Mundo é nossa, com brasileiros não há quem possa”. Não, não há. Ele sabia disso quando separou sua camisa da Seleção, guardada especialmente para a ocasião. A mesma da Copa de 2002, a mesma do Penta. Em 98, ele preferiu vestir uma camisa nova ao invés da usada em 94, no Tetra. Deu no que deu. Tudo culpa dele.

Mas isso não aconteceria agora. Seriam seguidos os mesmos passos de 2002 e 1994, exceto por um problema: nas duas Copas, ele estava morando com alguém a quem ele chamava de “meu amor” – hoje ela é a “mal-agradecida”. Uma esposa, embora não fossem casados – a mãe dela diria “amasiados”. Independentemente do status do relacionamento que tinha na época, sempre assistiu aos jogos junto da bem-amada. E agora, a uma semana da estréia do Brasil na Copa, era um homem solteiro. Ah não.

Ele tentou impedir a saída dela de casa. “Você não pode me deixar. Não agora. Espera a Seleção voltar com o Hexa, aí a gente termina”. Era pedir demais? Ela era mesmo uma traidora da pátria, alguém que não se importava com as glórias da nação em que vivia. Maldita.

Agora era tarefa dele encontrar alguém para dividir o mesmo teto. Em uma semana. Qualquer pessoa com sentimento patriótico entenderia e aceitaria morar com ele, beijá-lo nas comemorações de gol, deixar a cervejinha para gelar, fazer cafuné para acalmá-lo, pular com ele ao fim de cada jogo. Manter as tradições. Nada demais.

Ao fim da Copa, ela voltaria para casa e eles nunca mais se veriam – e então ele teria quatro anos para procurar uma nova companheira.

Uma semana. Parecia um tempo bem restrito, e ele não sabia exatamente como encontrar essa mulher. Optou pelo modo mais rápido de resolver o problema – algo que a propaganda na tv chamava de “classificados”. Decidiu dizer o fundamental: “procura-se mulher disposta a fazer o Brasil ganhar o Hexa. Forneço acomodação e alimentação”.

Curiosamente, ninguém respondeu em cinco dias. Parecia um bom anúncio. Mas era Copa do Mundo, quem ia perder tempo lendo os Classificados? Todo o jornal era verde-amarelo. As pessoas só queriam ler o Caderno de Esportes. Era o princípio do fim. Seria, novamente, o culpado pela derrota do escrete canarinho.

Foi até a porta do prédio observar a alegria das pessoas. Coitadas. Não sabiam ainda que a Seleção não traria a taça dessa vez – e por causa dele. Sentou, cabisbaixo, na escada em frente ao prédio. Tudo perdido.

De repente, uma mala e um par de pernas femininas. Bem em frente a ele. “Oi, você sabe onde tem um hotel em que eu posso ficar só durante a Copa?”. Ele sorriu.

Deus é brasileiro e a Copa do Mundo é nossa. Mais uma vez.

Não aguento mais Copa do Mundo…