maio 2006

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Levantava, fazia o café. Lavou, passou e cozinhou pra ele. Foi elemento sorridente nos jantares formais em que sua presença era necessária. Deu-lhe uma filha. Cumpriu seu papel na sociedade. Casada, esposa e dona-de-casa, mas cuspiu no café dele por pelo menos 27 anos.

Confessa. Vez ou outra, assoou o nariz e misturou no café com leite.

*

Eu não acredito nisso de amor. Nunca achei ninguém que me amasse. Nunca achei ninguém que merecesse me amar. Eu casei e pronto. Depois de velha, procurar o amor? Não. Eu só procuro o que eu posso encontrar.

*

Uma mulher tão boa. Uma tristeza ser passada pra trás desse jeito. Ai se fosse comigo. Olha lá, judiação. Toda preocupada com as crianças. É bom, a gente chega e deixa os meninos com ela. Aquele marido dela não deixa ela se divertir, pelo menos assim ela se ocupa, não é? Coitada ser corna desse jeito. Olha, o marido safado tá olhando pra cá. Ah, mas até que ele é bonitão.

*

Não agüentava mais esfregar e deixar de molho as camisas sujas de batom. Foi ter com o marido. Se ele continuasse com isso, teria de tomar medidas drásticas: usaria sabão de coco pra tirar as manchas, mesmo que ele não gostasse do cheiro. E tinha dito.

*

Velha ridícula. E não me venham com essa de que se arrependeu do passado conservador, porque ninguém se arrepende de ser decente.

Rebolava na rua, metida numa mini-saia. Mulher com filha e netos fazendo esse papelão. Credo em cruz.

É…

Num domingo à noite, Café do Teatro, conversavam sobre qualquer coisa que ela não lembrava. Estava há um bom tempo olhando pela janela. Fundo de um prédio de apartamentos, um varal. Ela tentava identificar as peças. Não conseguia, estava muito longe. Um pedaço de pano vermelho chamava a atenção, grande demais para ser uma calcinha, muito pequeno para ser uma blusa.

Tentava descobrir. Um lenço de homem? Uma camiseta de criança? Não sabia dizer. Engoliu a vergonha e confessou: olhava varais alheios.

Existem vários meios de se observar pessoas. Ela gostava de todos eles. Quando mais nova, lia a “Comédia da Vida Privada”, de Luiz Fernando Veríssimo, e criava todas as cenas na sua cabeça. Até que viraram episódios na televisão, e ela confrontava sua versão com a exibida. Era uma apaixonada por olhar a vida dos outros.

Ele falou na possibilidade de revirar o lixo – o que a ela parecia muito trabalhoso, mas a técnica foi usada em uma das histórias de Veríssimo. Varais eram tão mais práticos. Diziam quem morava naquela casa. Se usava meias coloridas, esportivas ou sociais. Se havia crianças. Se as cuecas eram furadas, se as calcinhas eram grandes.

Sempre teve a mania de olhar os outros. Uma das maiores diversões era andar olhando pra cima. Deviam achar que era uma maluca. E daí? Descobriu bananeiras nas coberturas do Rio de Janeiro. Viu pessoas normais vendo tevê no início da noite. Gente lendo na sacada. Muita gente fumando nas janelas.

Aliás, tinha descoberto que fumantes também gostavam de observar outras pessoas. Porque sempre que tinham que fumar na janela, acabavam exercitando seu lado voyeur de viver a vida. Eram os fumantes que a enxergavam dentro do carro, quando ela, parada no sinal, procurava sinal de vida nas janelas dos prédios. Os únicos.

Ela não fumava. Mas gostava de olhar pessoas. E adorava varais. Ele disse sobre uma exposição de fotografias que tinha varal como tema. Várias fotos, panorâmicas. Grandes varais, repletos de possibilidades.

Mas ele não pensou nisso, só viu as cores e achou bonito. Uma pena. Ela teria criado uma história para cada foto. Com cenas de amor e ódio. Roteiros complexos, cheios de tramas. Mesmo que fossem só pessoas com o cotidiano mais comum que se pode imaginar.

E qual seria a graça em imaginar que todo mundo leva uma vida besta?

Pegou o copo de cerveja e tornou a olhar o varal. Talvez o pano vermelho fosse só um guardanapo. Ou um lenço de pirata usado naquela festa à fantasia, quando se beijaram pela primeira vez. Quem sabe?

Ou então…

{ É Carnaval }

Uma máscara. Era assim que ele se definia a quem perguntasse (não que alguém efetivamente o fizesse). Como se todos os dias fossem Carnaval, como se a fantasia fosse roupa de civil, de todo dia, de ir ao trabalho, à feira e ao cinema.

Vestia sua roupa de pierrô, com lágrima escorrendo no rosto e sorriso rasgado na cara, e ia interagir naquele grande baile de máscaras chamado mundo. Ninguém parecia se incomodar com a fantasia alheia. “Cada um é o que aparenta ser”, era a regra. Fazia todo o sentido encontrar Cleópatra na fila do pão ou o homem das cavernas no bar. Eram máscaras, e nada mais. Para levar a existência de forma que ninguém se perguntasse o porquê.

Mas Drummond estava certo e tinha uma pedra no meio do caminho. Naquela manhã – que ele não se lembra se era de sol ou de chuva –, alguém parou em frente ao pierrô e o olhou nos olhos, por trás do disfarce. O palhaço, que a mim sempre teve um quê de triste com sua obrigação de rir e fazer rir o tempo todo, gelou. Dentro dele, todas as lágrimas disfarçadas corriam livremente, como num rio.

(No silêncio completo da noite, era possível ouvir o murmurar desse rio que corria dentro dele, quando a máscara finalmente ficava jogada no chão do banheiro. Durante o dia, carros de som, buzinas, ônibus, gritos, televisão, nunca ninguém era capaz de ouvir o som das lágrimas que o percorriam.

Nunca, até aquele momento.)

Arrisco dizer que, por alguns segundos, o rio dentro dele parou de correr. Alguém se dignou a transpor aquela barreira que o protegia do mundo.

“Por quê?”. Foi só o que disse, para sumir entre aquele estranho baile de máscaras. O pierrô não lembra de ter visto fantasia, mas preferiu acreditar que aquele ser era um anjo (como preferiu acreditar que todos os responsáveis por fazê-lo tão triste eram demônios).

Era mais fácil acreditar num cotidiano fantástico, onde todos têm papéis bem definidos; o canalha, a pervertida, a santinha, o vagabundo. Todos sabem do que são capazes – e o pierrô sabia o que esperar de cada um deles.

(Nesse mundo repleto de máscaras, a definição do que somos se torna elemento vital e facilitador.)

Alguém quebrou a barreira e encontrou o homem por trás do palhaço. Ficou a pergunta. “Por quê?”

Decidiu se despir ali, no meio da rua. Não fosse o pierrô e fosse um nu. Um maluco no meio do baile. Não seria mais o palhaço. Não, isso não. Seria o que procura a pessoa por trás da máscara. Que faz a música parar por um segundo, para olhar nos olhos de outro e perguntar: por que?

Alalaô ooô ooô…