abril 2006

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O telefone às vezes nos faz mal
E sem querer acaba uma paixão
Eu me chamo Zé, pois é, fiz a ligação
E ela disse “alô, João”
(Baden Powell)*

Ela esperou muito o telefone tocar naquela noite. Na verdade, conseguiu segurar os instintos por umas duas horas, quando tomou banho e dormiu esperando que ele ligasse. O relógio insistia em fazer andar os ponteiros e o telefone insistia em continuar mudo.

Reorganizou tudo pela quinta vez. Deitou na cama com o cuidado de não amassar a roupa recém-passada. Ficaria ali, esperando. Porque ele ia ligar em breve. Ele prometeu, ela acreditou.

Estava tudo pronto. O vinho, o incenso, a roupa, a cama. Tudo planejado. Ela ficou ali, ao lado do telefone. Pedindo pra ele tocar. E então ele chegaria e eles teriam a mais agradável e inesquecível de todas as noites.

Mais quarenta minutos e nada dele. Ela começava a escorregar na cama, e a roupa começava a amassar. Mas é claro que ele ligaria. E então ela passaria a roupa de novo e faria o retoque na maquiagem e no perfume. Porque ele só deve ter se atrasado. Nunca a deixaria esperando tanto tempo. Ela cochilou. Mas só por uns minutos. Uns 17 minutos.

Acordou e viu a cara de sono no espelho. A roupa amassada. Achou melhor ficar acordada e fazer alguma coisa que a animasse. Tudo em seu devido lugar, só faltava o telefone tocar. Ansiosa, tamborilando os dedos no móvel, olhando aquela invenção fantástica de Graham Bell.

Ela começava a acreditar na intuição que teve de manhã. Ai dele se não telefonasse. Ela o picaria em pedacinhos. E ele teria a pior noite de toda a vida.

Mais meia hora, ela manda uma mensagem no celular dele. Ele simplesmente não responde. Ela inventa uma desculpa qualquer para o silêncio, porque realmente queria acreditar naquilo tudo. Queria continuar acreditando nele. E nela, em especial.

“O homem planeja, e Deus ri”.

Era isso, naquela hora Deus devia estar rolando de rir no chão do céu. Era um homem também, o maldito. Esperou mais 20 minutos e desistiu. O telefone não tocaria. Ela maldiz toda a raça humana do sexo masculino. Pensa na grana toda, na produção.

Furiosa, pensou em quebrar a garrafa de vinho – aquele maldito vinho – na cabeça dele, caso ele se desse ao trabalho de telefonar. Achou melhor não devolver a cama aos gatos ainda. Antes afastados para não presenciarem uma noite de amor, agora eram poupados de uma possível cena de tortura e assassinato.

Recebeu uma mensagem no celular desmarcando tudo à 1h15 da manhã. Desligou o aparelho. Desarrumou a cama, abriu uma garrafa de vinho e foi ver “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”. E jurou nunca mais esperar o telefone tocar.

*porque não é de hoje que telefones são instrumentos de tortura…

Riiiiiiiiiiiing!

Ahm? Mas com quem eu tou falando? Devo ter me enganado.

Isso aí. Desculpe, foi engano.

Aliás, essa foi a frase do final de semana. Na primeira vez, dita pela minha nova companheira de casa, ligando pro namorado e falando com um completo desconhecido.

“Oi, tudo bem?”

“Tudo bem, o que que você tá aprontando?”

“Ah, tou aqui, blábláblá.”

“Que bom, e…”

“Peraí, quem tá falando?”

“Maurício.”

“Ah, Maurício, eu queria falar com o Luciano.”

“Não tem nenhum Luciano aqui.”

“Ai, desculpe, acho que me enganei!”

Em seguida, toca o meu celular.

“Quem é?”

“Letícia”

“Letícia? Mas de quem é esse celular?”

“É meu, uai!”

“Você esteve em Barracão no final de semana?”

“Ahm? Não! Nunca estive em Barracão.”

“Maldita, me deu o número errado, aquela vaca. Desculpa, foi mal.”

E assim foi. Começou a sexta à noite e se estendeu até segunda no começo da tarde, na verdade. Vários telefonemas enganados. Teve engano até no MSN, programa de mensagens instantâneas na internet. Não era possível que tanta gente se confundisse assim, justamente com o meu número.

Só faltou ligarem pedindo uma pizza. Ou um exame de próstata. Quase todas as alternativas um pouco menos bizarras aconteceram.

Ignorando todos os sinais sobre o quesito “engano”, na segunda, fui conversar com o moço com quem eu saía há mais ou menos um mês. Aquela situação meio esquisita, nós meio brigados, sem nos falarmos há dois dias depois de uma espécie de crise.

Pois veja bem, as coisas são assim mesmo. A culpa não é de ninguém.

Todas as noites que passamos juntos, as risadas que demos juntos, as comidas que preparamos juntos. As vezes em que dissemos que gostávamos um do outro. Os beijos que trocamos, apaixonados na cama, fugidios em frente aos que não sabiam que estávamos juntos.

Desculpe, foi engano. Aquela mulher que eu achei que gostava, vai ver, não era você. Até mais.

Tu tu tu…

Alou?