março 2006

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“Mas são tão loucas as coisas que fazemos para ser felizes, que amar deve ser só mais uma delas”.

Elas conversavam. Porque realmente não dava pra viver ao lado de um bêbado o tempo todo. E eu ainda sou muito nova pra agüentar tudo isso, credo.

Eram três mulheres na mesa. Duas taças de vinho, uma bandeja do McDonald’s. Alternavam-se na discussão a mais velha e a mais nova. Com relacionamentos amorosos recém-terminados, falavam sobre os ex-namorados – mesmo que para se convencer da escolha que tinham feito.

Falavam de família. De filhos, marido, morar junto.

Uma das mulheres, naquela mesa, não conseguia acompanhar a conversa. Pensava no quão longe é do outro lado do Atlântico. É longe o bastante para esquecer alguém? Ou só o suficiente para querer estar muito mais perto do que se está?

Perguntou-se o que ia acontecer agora que a distância entre eles realmente ia existir. Durante todo esse tempo, mesmo quando afastados, eles sabiam que podiam se encontrar a qualquer momento – desde que os dois concordassem com a idéia.

Ah, porque não dá pra agüentar essa proximidade toda. Morar junto é um saco. Chega uma hora em que você passa em frente à pessoa quinze vezes e ela nem percebe. É como se a gente fosse mero objeto de decoração, sabe como? A mais nova concordava com a cabeça.

Na verdade, a que só ouvia a conversa não sabia. Sempre que se encontraram, tudo o que nunca aconteceu foi nada. Sempre foi intenso demais – e, por isso, talvez, nunca tivessem um relacionamento nos moldes usuais.

Eu não quero gostar de ninguém, agora vou cuidar só de mim. Só quero caras que me dêem tudo o que eu preciso, amor, carinho, cuidados. “Homens de verdade, sabe como?”, dizia a mais nova. A mais velha concordava.

A outra, sem dizer palavra, lembrou que seu homem de verdade era um menino. Com idade e emprego de gente grande, mas só um moleque. E era o que ela mais gostava nele. Aquela irresponsabilidade responsável, de quem sabe quando pode enlouquecer e quando tem que seguir o caminho certo.

O vinho acabou. Sobrou o milk shake de baunilha. Vamos fazer compras? Preciso me presentear, me reerguer. Acabei de sair de um relacionamento, eu mereço!

Vamos.

Enquanto a mais nova e a mais velha olhavam botas, a outra decidiu. Se não achar nada que acabe com esse aperto no peito, aproveita e compra uma passagem pra cruzar o Atlântico.

Arram…

“Quero uma chance de tentar viver sem dor”. Mudou a estação do rádio. Era um dia daqueles comuns, com o espaguete cozinhando na panela enquanto ele, sentado no balcão da cozinha, tomava uma taça de vinho vigiando a massa. Em que não queria pensar em nada, pra não se lembrar dela. Nem que estava sozinho. De novo.

A verdade é que tinha, lá no fundo, a esperança de que ela aparecesse como quem não quer nada. Com seu cheiro de banho recém-tomado e o frescor das manhãs de outono, que finalmente pareciam ter chegado. Trazendo o sorriso que ele tanto queria ver e mais uma garrafa de vinho.

E seria mais uma daquelas tardes que se arrastavam até a manhã do dia seguinte, em que eles se enrolavam um no outro o dia todo, ouvindo B. B. King, Lenine e Seu Jorge. Sem fome, “matando a sede na saliva” (sim, também ouviam Cazuza).

Mas ela não foi naquele dia. Nem no seguinte. O macarrão deu a passar do ponto, e o vinho virava vinagre assim que era aberto. “Eu sei que parece muito estranho, meu sonho resolver me abandonar”. Amaldiçoou as traduções de Seu Jorge sobre as músicas do Bowie.

Não era a primeira vez que ficava sozinho. Para ser sincero, já tinha se acostumado, até o dia em que ela surgiu. Em que eles se olharam e sabiam o que ia acontecer, sem que nenhum dos dois dissesse palavra. Foram dias felizes, mas que nunca voltariam a se repetir.

Ele nunca mais ouviu o toc toc dos passos dela no corredor.

Nunca mais sentiu o cheiro dela. Aquele cheiro que lhe dava vontade de arrancar a roupa dela em qualquer lugar, fosse na cama ou entre as prateleiras de enlatados do supermercado.

A risada alta, que ele gostava tanto, mesmo que às vezes sentisse vergonha da atenção que ela chamava em qualquer lugar.

Os olhos pretos e grandes, que sorriam sem que ela precisasse mexer os lábios.

Nunca mais a ouviu gemendo enquanto se espreguiçava pela manhã, nem enquanto faziam amor. Nem as reclamações sobre as piadas sem graça que ele fazia, ou a manha que ela insistia em fazer nos dias de tensão pré-menstrual.

“E vem o sol fazer ficar tudo bem”. Vários dias de sol vieram, mas ela não voltou a fazer parte da vida dele – a não ser nos sonhos que ele tinha, acordado ou dormindo, durante todo o dia. Durante todos os dias em que ela esteve longe dele.

Ele decidiu que precisava ter com ela.

Passou na floricultura e comprou as flores do campo mais bonitas que encontrou. Eram suas preferidas: simples, mas capazes de alegrar uma vida toda. Como ela.

Perguntou ao porteiro onde ele poderia encontrá-la. Rua C, quadra dois.

Parou em frente ao túmulo. Deixou as flores e pediu desculpas por deixá-la ir. Agora estavam os dois sozinhos.

Post mortem:

“Brigas de casal podem fazer mal ao coração”. Era esse o título de uma matéria que li anteontem, na internet. Mas que diabo de notícia é essa?

Todo mundo sabe que picuinhas a dois, independentemente do grau de relevância das mesmas, causam sempre aquele aperto no peito, coração acelerado e aquela falta de coragem de encarar a pessoa depois. O medo de que o outro olhe e diga “eu não queria mais ficar com você mesmo”. E as mãos suam, dá palpitação e vontade de gritar. Precisa de notícia pra dizer isso?

Mas um dia ela acordou e descobriu que precisava ter uma discussão de relacionamento. Mesmo que, no mundo dos rótulos, não soubesse exatamente que tipo de relacionamento era aquele. E se perguntasse se era certo discutir a vida a dois com alguém que não era seu namorado. Muito menos marido. Nem amante, nem ficante. Alguém com posição indefinida em uma das tantas categorias que poderia se enquadrar. Simplesmente a pessoa de quem ela gostava, e com quem queria estar naquele momento, como esteve em tantos outros. E ponto.

Na verdade, ela não tinha dúvidas sobre se devia ou não falar com ele. Tudo que ela tinha medo era que ele simplesmente dissesse que gostava dela. E se seguisse aquele silêncio, cortado pela continuação “mas é que…”. Teve vontade de sair correndo. De largar mão de tudo, que era tão mais simples. O estômago embrulhou, perdeu a fome, teve pesadelo. O coração disparou, parecia querer sair pela boca. Ficou borocoxô, depois de mau-humor.

Ameaçou chorar. Pensou em porque tudo sempre insistia em dar errado, em porque os homens são assim, na morte da bezerra, na derrota do time de futebol, na conta do banco estourada, na miséria da existência humana e… acabou falando com ele. E se entendendo (pelo menos ela acha que sim).

“Brigas de casal podem fazer mal ao coração”. Eu decidi clicar no link e ler a matéria. Fiquei curiosa com que novidade a tal notícia achava que ia trazer. E leio: “Brigas de casal podem endurecer as artérias, de acordo com um estudo da universidade americana de Utah”.

Endurecimento de artérias? Depois disso tudo, quem se importa com umas drogas de artérias entupidas?

Argh. Mais essa. Além de tudo, ainda vai enfartar o dito cujo com quem sai.

Ninguém disse que ia ser fácil…