fevereiro 2006

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{ It´s only rock´n roll }

Decisão tomada num momento completamente perdido, daqueles dias sem dinheiro e sem amor, em que a gente se pergunta o que diabos está fazendo na Terra. Eu inventei a resposta: “estou esperando o show dos Stones”.

Eu fui. E ainda não voltei.

Segunda, resolvi ver a apresentação do U2 na televisão. Ouvi duas músicas e desliguei. Eu ainda não voltei do Rio de Janeiro.

Eu cheguei de viagem às quatro da manhã, tomei banho, fui pra aula, fui trabalhar. Mas ainda estou no show dos Stones.

Continuo meio catatônica, como quando vi Mick Jagger, calça preta e jaqueta prateada, entrando no palco ao som de Jumpin’ Jack Flash. Troquei o óleo do carro hoje cedo, mas sigo ouvindo Wild Horses ao fundo.

A única pessoa que podia me trazer de volta de lá, preferiu me deixar no Rio de Janeiro. Com a imagem do palco gigantesco e de um décimo da multidão que eu acho que consegui enxergar. Então eu continuo no show, olhando para tudo e para todos fixamente, mal me mexendo. Captando o máximo de informação em duas horas. Desviando dos ambulantes e alheia aos gritos de “três refri é cinco real”.

Ainda consigo ver a multidão pulando e eu, parada no chão, simplesmente sem conseguir me mover. Eu travei. Continuo travada, até agora. Porque eu estou em Curitiba, mas ainda não voltei do Rio.

Não foi tranqüilo, isso é fato. A aglomeração de espectadores era gigantesca e a dificuldade dos bombeiros em transitar naquele mar de gente era visível. Quase desesperador, eu diria. Foi nesse momento que levaram meu celular, numa onda de furtos embasbacante: praticamente uma tentativa a cada 30 segundos, durante uns cinco minutos. Ufa. E o show nem tinha começado.

A entrada daqueles senhorinhos sexagenários muda tudo. Não vi brigas e não vi roubos. Aliás, não vi nada: só os Rolling Stones. Sexagenários o diabo. Pareciam todos ter 20 anos, inclusive o guitarrista Keith Richards, que assume os vocais em duas músicas. O mundo é roqueiro. Até o ambulante ao meu lado respeita, e grita somente nos intervalos entre uma música e outra.

O show acabou há mais de três dias. Mas não pra mim. Eu continuo lá, na praia. Eu e um milhão de pessoas.

Segunda à noite, tentei assistir ao show do U2 na televisão. Impossível. Todas as imagens se transformavam e eu acabava vendo os Rolling Stones. E eu até queria ter ido pra São Paulo pra ver Bono Vox e companhia.

Não sei quanto tempo vai demorar pra eu fazer o caminho de volta para a vida real. Eu ainda consigo sentir as lágrimas de quando o show acabou e meus amigos incrédulos me perguntaram se valeu a pena.

É claro que valeu a pena. É um show eu assisto há mais de 72 horas, mesmo dormindo. Porque eu ainda estou lá.

But I like it!

Não é bonito, eu sei. Nada bonito, como diria minha mãe. Mas o fato é que escutar a conversa dos outros pode não ser educado, mas muitas vezes é bem educativo. Ou, na pior das hipóteses, divertido.

Ela entrou no ônibus e fez questão de sentar próxima a um casal de namorados um pouco afastados. Com experiência no ramo de prestar atenção no papo alheio, sabia que namorados melosos raramente rendem mais que um “ah, amor, eu te amo”, “meu biluzinho lindo” e “oh, vou ficar com saudade essa meia hora sem você”. Gostava dos que estavam de cara virada, porque significava uma daquelas discussões de relacionamento extensas, com argumentos furados e entretenimento pra quem escuta.

Ficou lá, esperando. E nada. Nem uma só palavra. Tinha vontade de se virar e pedir para que conversassem e resolvessem os problemas, “onde já se viu um casal tão bonito assim, brigado”. Os dois se levantaram e desceram no ponto seguinte. Nem um beijinho. A coisa devia ser séria.

O lugar logo foi ocupado por duas senhoras muito faladeiras.

“Ah, e viu que o Seu Ademar faleceu, coitado?”.

“É verdade, um homem tão bom…”.

Pausa. Uns dez segundos de silêncio meio incômodo, a última continua: “é, mas eu ouvi dizer que ele tinha um caso com a moça que serve lá no bar, será que é verdade?”.

“Ah, eu acho que é, sempre percebi que ele ficava olhando demais pras reboladas dela”.

“Coitada da Dona Judite, um homem safado desses dentro de casa.”

“Coitada nada, agora ele morreu mesmo! Bem feito pra ele.”

Em pé, junto à janela, duas meninas por volta dos 17 anos.

“Mas é um cachorro mesmo. Ai, se eu pego! Eu mato!”

Observando a cena, ela se perguntou se as meninas novas também conheciam o Seu Ademar. Mas depois pensou que não, afinal, esse agora estava falecido e já era poupado o esforço de matá-lo.

Ela olha pra frente. Entra no ônibus um homem por volta dos 30 anos, camisa e calça social. Conversa com um rapaz pouco mais novo, por volta dos 25.

“E isso tudo é coisa do diabo! Que a mulher que tem Satanás no corpo atenta o homem, que tem que ser bravo e resistir. Mas a culpa é dela, em primeiro lugar, porque instiga a luxúria num homem sério e trabalhador.”

Pronto, até advogado o falecido Seu Ademar já tinha achado. A culpa era da moça do bar, veja só. Aquela provocação ambulante.

Na verdade, ela descobriu logo depois que o tal homem que falava do capeta tentava argumentar seu próprio pecado, numa comparação meio manca com a história de Adão e Eva. Mas a culpa não era dele, isso não. Nem deveria ser do Seu Ademar.

As senhoras continuavam no papo animado, e ela chegava perto do ponto de descida. Levantou-se, pronta para descer. Mas antes de saltar, interrompeu a conversa das mulheres e mandou os pêsames para Dona Judite. Coitada.