janeiro 2006

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Tenho uma amiga que diz sempre que a cantora Fiona Apple é a mulher mais azarada do mundo, amorosamente falando. Hum. Temos um páreo duro.

Durante duas semanas, eles trocaram e-mails diariamente. No único dia em que ele não a respondeu, ela mandou uma mensagem pelo celular – que ele prontamente respondeu, telefonando e pedindo desculpas. Era um bom relacionamento. Está bem que essas coisas não acontecem, e que são histórias fadadas ao fracasso logo nos primeiros cinco minutos.

Quando não vão ralo abaixo, se transformam em uma daquelas histórias de amor que todo mundo acha bonita. De amores predestinados e de almas gêmeas.

Eles se conheceram no último dia do ano, em um dos lugares mais bonitos em que ela já foi. Uma dessas visões que se pode ficar olhando por horas sem cansar – quando ela repousava o livro sobre o colo e se perdia olhando pra baía ao redor da casa. De vez em quando, o olhar saía do mar e ia parar nele, que sorria.

Devia ter percebido o sinal. Lia a biografia de Clarice Lispector e, talvez, tal qual a escritora, estivesse malfadada a amores que nunca dariam certo.

Naquela noite, uma série de desencontros. Acabou deixando o moço no bar, um desses bares perfeitos para o começo de um romance. Ele continuava sorrindo, mas por alguma razão desconhecida, não se entenderam.

Contrariando todos os prognósticos, no primeiro dia do ano ele bateu à janela dela às 3h da manhã. Queria vê-la antes que fosse embora. Ela não sabia se era o destino tentando corrigir as coisas, mas ao invés de ficar se perguntando, achou melhor aproveitar bem suas últimas horas naquele paraíso.

Foi depois disso que eles se distanciaram. Ela saiu, conheceu gente nova e até recebeu serenata na praia, em uma dessas madrugadas em que se chateou com a cidade e achou melhor passar meia hora com os pés na areia, vendo o mar. Talvez para recobrar um pouco da história daquele primeiro dia do ano.

Pensava nele de vez em quando. E, novamente indo contra as expectativas, encontraram-se de novo no mundo virtual. Foram aquelas duas semanas trocando e-mails. Só que, no real universo moderno, a internet que une é a mesma que afasta.

E ela passou a desconfiar que essas histórias de amor e destino devem mesmo não passar de balela pura. Retomou a leitura de Clarice Lispector. Colocou o CD da Fiona Apple pra tocar.

“I wouldn’t know what to do with another chance
If you gave it to me
I couldn’t take the embrace of a real romance
It’d race right through me
I’m much better off the way things are”
Fiona Apple

É, ninguém disse que ia ser fácil…

Um dia a gente tem que crescer. É o que dizem. Crescer, ter emprego, casar e ter filhos. Eu não tenho nada disso. E acho que cresci.

É claro, não estou falando sobre crescer centímetros – até porque isso é relativamente limitado (tratamentos e um bom salto, para as meninas, ajudam). Falo sobre um processo que eu não sei se percebi acontecer. Sempre me pareceu que crescer exigisse um ritual. Formatura. Casamento. Qualquer coisa do tipo. E sempre me preparei para isso, fornecendo tudo o que fosse preciso para cumprir o cronograma da vida normal – e, consequentemente, o crescimento apareceria.

Mas não. Foi justamente quando me vi sem emprego e sem namorado que tudo aconteceu. Eu cresci quando descobri o que eu quero e – mais que isso – o que eu não quero pra preencher os meus dias, agora tão cheios de mim mesma. Mais ou menos como uma chance de recomeçar, fazendo as coisas do jeito que eu considero certo, e não como disseram que ia ser. Eu, talvez pela primeira vez na vida, finalmente sei o que estou fazendo.

Quinta à noite, cinco mulheres em torno de uma mesa. Uma casada, uma noiva, duas com namorados e eu, solteira. Todas com 25 anos. Discussões sobre a vida a dois, a maravilha de se dividir as escovas de dentes. Eu, dos 17 aos 25 anos, praticamente emendei um namoro em outro, meio sem saber o porquê. Afinal, é o que todo mundo espera, que as pessoas namorem e se casem. Não é?

Era o que eu achava. Queria logo cumprir o meu papel e resolver o problema. Mas nenhum namorado deles me fez feliz por mais de três anos. Foi quando eu descobri que não adianta só ter um cara bacana, inteligente, trabalhador e que goste de mim, como minha mãe explicou. E nem adianta só a gente se formar e trabalhar. É preciso mais que o salário no fim do mês pra gente ser feliz.

Mas nada disso importa naquela mesa de senhoras comprometidas e com empregos, porque eu não tenho um namorado, um chinelo velho pro meu pé cansado. Não tenho homem da minha vida aos 25 anos e não tenho nem sequer um caso. Que horror. Sou uma encalhada. Que desgraça. Que tragédia. Como é que eu vou casar e ter filhos antes dos 31? Sou uma mulher fadada ao fracasso.

“Arrume um emprego, case e tenha filhos”, é o que todos dizem. Eles só esquecem de dizer que isso tudo tem que fazer a gente feliz. Que, no fim das contas, cumprir tudo o que dizem que deve ser feito só compensa se você puder parar às 15h34 de um dia de semana e sorrir, aparentemente sem motivo.

Eu descobri o que me faz feliz, e não é nada que choque as velhinhas mais conservadoras da tradicional sociedade curitibana. Eu não tenho um namorado, é verdade. Nem um emprego de verdade. Mas acho que foi então que eu cresci. Agora eu trilho meu próprio caminho e, finalmente, sei para onde ir.

Hoje, dirigindo meu carro em pleno centro de Curitiba, sou presenteada com uma florzinha roxa caída do céu diretamente no meu pára-brisa. E ainda querem dizer que eu não sou feliz.

O que é preciso pra ser feliz??