novembro 2005

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Tempo. Quando eu era criança, queria uma máquina que pudesse acelerar ou retardar o andamento dos ponteiros. As férias e os finais de semana, todos com os segundos demorando a passar. E os dias de aula que chispassem zunindo, para que eu, de novo, pudesse voltar a ter diversão com o tempo em câmera lenta.

Hoje, me atordôo com a idéia dos prazos. Um trabalho para daqui a 15 dias – ops!, agora já são 10 –, será que vai dar tempo? Um almoço rápido: fast food, macarrão instantâneo ou esquentar comida no microondas?

Tempo esse que, dizem, corre impassível, criando em cada um de nós um estoque de lembranças e sensações. Que anda até para quem já morreu, porque quem fica aqui conta os dias que passaram – e é preciso avisar o pessoal do almoxarifado que vem uma nova carga de saudades por aí.

Quanto tempo é preciso para esquecer alguém? Quanto tempo leva pra deixar tudo diferente?

Três segundos. Foi o tempo necessário pra mudar tudo. Ele passou por mim derrubando tudo ao redor – as paredes caindo, os amigos sumindo, as árvores tombando. Três segundos. Nós nos encaramos, os olhos claros dele decifrando os meus, castanhos. Três segundos. Para, em seguida, as paredes se reerguerem, os amigos reaparecem e as árvores se levantarem e tomarem seu lugar de costume.

Inspirei o ar com força, depois de três segundos sem respirar. Não parecia muito tempo aqui nesse mundo, mas naquele, onde os olhos se encontraram, foi o suficiente para quase morrer sufocada. Máquina para acelerar ou retardar o tempo? Para que?

Foi nesse quase nada de tempo que eu voltei a sorrir, depois de péssimos dias. Foi em um vigésimo de segundo que a atmosfera tornou a ficar cor-de-rosa. Esses três segundos me fizeram perder – ou ganhar, é tudo uma questão de ponto de vista – três dias, que deviam ter sido usados para o trabalho, mas eu não consegui me concentrar.

Parece pouco tempo para uma mudança tão drástica. Mas não é. Três segundos é tempo o bastante para apertar o gatilho da arma. Para acertar aquela cesta no basquete e virar o placar. Até gol dá pra fazer nesse tempo – o mais rápido foi marcado por um uruguaio e levou só 2,8 segundos.

E ainda dizem que, para amar, é preciso tempo. Só se for para esquecer. Para se apaixonar por alguém, são necessários só três segundos. Ou talvez mais três, até que ele diga que é casado e me faça ficar boquiaberta por três segundos, sem saber o que dizer.

Do começo ao fim, foram 6 segundos. E ainda dizem que esse tal de amor presta. O mundo não é justo, definitivamente.

“As paixões são como as ventanias que incham as velas do navio. Algumas vezes o afundam, mas sem elas não se pode navegar. (…) Na terra é tudo perigoso, e tudo necessário”.
Voltaire

Ai ai…

Mais um dia cinza, como tantos outros que insistem em tomar conta da cidade. Andando pela rua pela manhã, assim que saio do carro, encaro um senhor maltrapilho, cerca de 50 ou 60 anos, enrolado em um pedaço de manta. Não faz tanto frio, mas a gripe que me derruba parece também tê-lo atingido.

Ele sorri. Aquele esboço de sorriso meio amarelado, envergonhado de rir entre a barba desgrenhada e a desgraça da porta da padaria. Olho em volta. Bairro do Batel, Curitiba. Prédios de apartamentos. Sacadas. Moradores – não, isso parecia não existir.

Tudo absolutamente vazio nos prédios em volta. Estávamos, no nível da rua, eu e aquele senhor. À nossa frente, carros e pessoas disputando espaço. Curiosamente, do primeiro andar para cima, é como se não existisse vida.

Sento-me ao lado dele na marquise da padaria. Os dois agora observando a solidão das sacadas. É verdade, alguém deve viver naqueles apartamentos todos. Mas não se vê ninguém. Olhamo-nos desacreditados.

Enquanto isso, conversamos em silêncio. Eu respiro meu mau-humor da última semana, justo eu, que não sou dada a isso.

Mau-humor.

Não foi porque eu derrubei todo o café na calça logo cedo, nem porque cheguei atrasada para a prova – que, aliás, nem teve. Não foi porque fiquei presa no trânsito ou porque a gripe me deu uma rasteira. Não foi pela insônia, nem pelos pesadelos.

Não foi por nada disso. Foi por um problema com nome e sobrenome, endereço e telefone. Foi por um problema que parece não ter solução.

Continuamos olhando para cima, esperando alguém. Ele entende que me desarrumaram, como quem bagunça uma gaveta. Embaralharam as blusas de frio com as de calor, essas que não são usadas há tanto tempo – seja pelo frio dessa primavera invernal ou pela falta daquele calor que aquece a alma, como na música.

Os olhos dele param de olhar o céu e me fitam por alguns segundos. O olhar me responde que falta o sol. Para estender tristezas e roupas escuras, tirando do armário aquele cheiro de roupa seca à sombra. Concordo com a cabeça.

Voltamos a olhar para o alto. Já não sei se procuramos pessoas nas sacadas ou um vestígio de sol. Mais que isso, talvez a esperança de dar de cara com Deus, acenando e dizendo que tudo vai ficar bem.

De repente, lá pelo quinto andar, uma criança aparece e se deita na rede pendurada na sacada. Seguida pela mãe, que toma o pequerrucho no colo e o acarinha. Olhamo-nos surpresos – eu e um senhor maltrapilho, cerca de 50 ou 60 anos, enrolado em um pedaço de manta. Como se realmente houvesse alguma esperança.

São 40 minutos de conversa silenciosa, até que ele diz: “há a vida e a morte – mas ainda estamos vivos”. E sai em direção a um passante, para pedir uma ajuda para o café da manhã do dia. Levanto, pego a chave do carro e sigo.

Ainda estamos vivos.

Pelo menos por enquanto…