setembro 2005

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{ Ah, esse tal de amor }

Falávamos em Pavlov. Reflexos condicionados. Aquele cara que demonstrou que os cães começavam a salivar só de ouvir o sininho que soava antes de cada refeição. E, logo mais, seguiram-se pesquisas com ratinhos brancos e choques. E falávamos de roleta russa, aquela brincadeira (brincadeira?) que se faz com um revólver com uma bala no tambor.

Falávamos de coisas desse tipo, mas estávamos falando de nós mesmos. Estávamos falando de amor. De uma maneira diferente, mas era isso.

De repente me lembra Leminski. Gente que fala de amor falando de outras coisas. Ou de Leoni (e eu odeio Leoni). “Eu tou falando de amor, e não do que você pensa”. Mais ou menos isso.

Eu, que andava repetindo que “esse negócio de gostar não presta”, me pego de novo apaixonada. Reflexos condicionados de Pavlov? Dizem que isso também funciona com humanos. Que é útil no tratamento de fobias. E eu já ouvi gente dizendo que tem dificuldade de gostar de alguém porque tem um coração burro (como eu, uma semana atrás, prometendo trocar meu órgão cardíaco por um fígado novo no tráfico internacional de órgãos). Mas nunca vi elas não se apaixonarem.

Por mais que você saiba que vai se quebrar, algumas coisas simplesmente têm que acontecer. Como, de repente, a bala na agulha da roleta russa ser sua. Como amar a pessoa errada. Como amar a pessoa certa, mas ela ainda não saber disso. Falávamos de cães, de ratos, de jogos. Mas também falávamos de destino.

E enquanto eu dormia, quentinha com o meu lençol elétrico, eu percebi uma coisa engraçada. Eu me queimei com o lençol. De repente, na minha barriga, cinco linhas vermelhas que nada mais eram que as marcas dos fios térmicos do tal lençol. E nem tinha percebido. Tá, e daí?

Daí que é bom estar quentinha e abrigada. E vale arriscar me queimar pra ter essa sensação. E, portanto, se tudo vai dar errado daqui a cinco minutos, eu quero mais é que se exploda. Eu gosto de estar sorrindo agora.

Falávamos de amor, mas também falávamos de tempo. O futuro? Ah, o futuro e o passado não existem, foi o que eu ouvi dizer. Assim como fantasmas. Mas há quem jure ter presenciado – passado e fantasmas e futuro.

Cães de Pavlov. Ratos brancos da Psicologia. Reflexos condicionados. Quantos choques elétricos eles tomaram antes de aprender a lição?

Falávamos de tanta coisa, mas tudo o que queríamos era ficar em silêncio.

sorte no jogo
azar no amor
de que me serve
sorte no amor
se o amor é um jogo
e o jogo não é o meu forte,
meu amor?
Paulo Leminski

Aaai ai…