setembro 2004

You are currently browsing the monthly archive for setembro 2004.

{ Antes uma certeza }

Duas e meia da manhã. Ela nunca acreditou em contos de fadas. Nem Papai Noel ela esperava, quanto mais acreditar em príncipe encantado. Tinha sérias reservas quanto ao assunto: homens prestavam praquilo que ela sempre soube que prestavam. E pronto.

Na primeira vez eles estavam muito bêbados. Foi ótimo, mas ele virou pro lado e dormiu. Enquanto ela, acordada, pensava que tinha feito merda – mas era bom.

A única ela não era – e sabia disso. Havia muitas outras. Mas ela não queria saber das outras. Queria saber dele. Justo ela, que sempre foi tão esperta. Agora incerta de várias coisas.

Não sabia que existiriam outras vezes, em que eles estariam de novo muito bêbados. Nem sabia que ia querer que ele ficasse um pouco mais. Nem que ele não saberia, no dia seguinte, o que tinha feito – com ela – na noite anterior.

Simplesmente ela não fazia a menor idéia. O que fazer, se existiam príncipes encantados ou se eles preferiam as princesas. Talvez fossem só um bando de sapos e ela estivesse delirando.

É, devia ser isso. Tomara que sim.

Adendo

E assim eu me pergunto: por que porra tou pagando a maldita análise?
Pra ter certeza que sou insegura.

Pra saber que todos bebemos demais.

Pra ter alguém pra me ouvir sem reclamar.

Pra tentar resolver problemas que nem eu consigo.
Talvez seja a hora de retomar o juízo.

ps: como ter um texto razoável se as coisas não são razoáveis?

certeza meio manca, essa…

{ Agora era }

“Me chama um táxi.”

“Agora?”

“Por favor.”

Foi quando ela descobriu que era puta sem receber por isso. Desconfiava, mas nunca havia tido resposta tão clara.

“Tuuuu… tuuuu… por favor, um táxi.”

Era uma puta. Já tinha ouvido falarem isso dela, mas era a única vez em que tinha se sentido como tal.

“Pronto, já tá vindo.”

Veste a blusa. A calça. Agora espera. Ele dormia. Sentada na cama, ela encostou na parede, pés sobre o colchão. Era questão de tempo até a cama ser toda dela de novo.

“Pééim…”

Ele acordou assustado. Havia deitado com uma puta. Talvez só mais uma, ela não sabia. Ele se vestiu olhando para os pés dela ainda em cima da cama. Que diabos queria com os pés? Ela procurou os olhos dele por trás dos cabelos.

“Estou embriagado.”

E ela era uma puta. Quis ser tudo, amiga, namorada, amante. Queria muito estar com ele – e então era uma puta.

Ele a beijou antes de sair. Talvez para consolá-la agora que sabia a verdade.

ERRA UMA VEZ

nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez

Leminski

e não havia mais o que fazer.

{ Mensagem não enviada }

Abre essa tua boca e me diz o que você quer. Não fica só me olhando assim que eu cato as tuas coisas e jogo pela janela.

Diz que me quer e que eu sou sua e de ninguém mais. Me abraça daquele jeito. Só não fica quieto assim que teu silêncio me enlouquece.

Só não fica quieto assim que você me obriga a falar – e eu sempre falo demais.

Abre essa boca ou eu abro essa porta e te jogo fora. E não vale não acreditar, senão não brinco mais.

Eu só queria que você dissesse. Que sim ou que não. Mas eu não vou perguntar, você vai ter que me dizer.

Deixa eu te desgraçar, maldito. Deixa que eu te amo como nunca.

Abre essa boca ou eu abro essa porta.

eu quero brincar
mas não assim
quando o jogo não tem regra
alguém se quebra

será que o sonho acordou antes de mim?

{ Amor de ocasião }

Ela parada, olhando para fora. Pensando na vida, nas contas a pagar, nas roupas a lavar, nos homens a esquecer. E então ele apareceu, ombros largos, cabelos pretos, compridos, olhos castanhos. Ela sempre gostou de cabeludos, desde que achou que se apaixonou pelo vizinho cabeludo, lá pelos 8 anos.

E ele com aquele monte de cabelo pronto para ser enroscado nos dedos dela. E com olhos castanhos. Os castanhos são divertidos porque não se perde tempo tentando decifrar a cor, só se fica perdido tentando decifrar o que querem dizer.

Ah, quanto cabelo.

Ele logo encontrou aquela figura parada. Belos peitos, foi a primeira coisa em que pensou. Sabe-se lá por que, no país das bundas sempre curtiu mais os peitos. Valendo a pena, encompridou o olhar e descobriu dois olhos grandes, brilhantes, olhando para ele.

Gostava dos olhos grandes porque se via refletido neles. O que era de certa forma narcisista. Mas de alguma outra maneira não era apenas isso. Voltou a olhar os peitos.

Ele abriu a boca e ela ficou esperando. Geralmente ela dizia tudo, porque era impaciente demais para esperar e escutar. Mas não dessa vez. Parecia que eles teriam todo o tempo do mundo.

Parecia.

O ônibus em que ela estava arrancou, desemparelhando com o dele, que ia em sentido contrário. Nunca mais se veriam. Resignada, ela voltou a pensar na vida, nas contas a pagar, nas roupas a lavar e nos homens a esquecer. E ele continuou pensando nos peitos.

Contas, roupas e homens: