agosto 2004

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Não se fazem mais canalhas como os de antigamente. Românticos, galanteadores e, ainda assim, canalhas. Capazes de arrebatar o coração da mais sensata das moçoilas com um único beijo nas costas da mão.

Os canalhas de antigamente tratavam cada rapariga com um tratamento especial – e uma cantada certeira para cada ocasião. Sabiam como dosar a distância, fundamental para que ele pudesse amealhar à sua lista outras senhoritas, sem fazer com que as já conquistadas o esquecessem.

Até porque a grande sacada dos canalhas era brincar de quebra-cabeça de corações. Despedaçá-los e reconstruí-los. Manter garotas secando as lágrimas nos lencinhos bordados, esperando o reencontro. Relendo bilhetes. Escrevendo nos diários o quanto esperavam pelo momento em que eles voltariam e lançariam aquele olhar fulminante, enquanto os lábios tocariam o dorso da mão da pobre mocinha.

E ser mulher de malandro, nos tempos áureos dessa prática, era honra. Senão, o que dizer de qualquer senhorita apaixonada pelo grande galanteador Vinicius de Moraes? Os canalhas eram grandes amantes – e, de lambuja, a bem-amada ainda podia acabar merecendo uns versinhos ou uma letrinha de música.

Naquele tempo, os canalhas tentavam esconder sua “natureza incontrolável”. Negavam essa posição, embora toda a cidade (ou a região, dependendo da competência do rapaz) soubesse que ele era um legítimo safado. Ah, os canalhas de antigamente tinham estirpe, coisa que não se vê mais hoje em dia.

Não se fazem mais canalhas como os de antigamente. O que é uma pena.

snif…

{ Eu vi, eu vi }

Um redemoinho dentro da cabeça, é assim. Tudo parecia ser tão mais fácil quando eu tinha 8 anos: ia trabalhar, me casar e ter filhos. Aos 20 anos, segundo minha concepção infantil, eu estaria casada. Filhos? Dois ou três, talvez aos 23 e aos 25.

Tudo tão simples, tão resolvido. Hoje, as idéias rodopiando na cabeça mostram que de repente tudo isso pareça cretino demais. Prosaico demais pra minha cabeça complicada. Talvez porque viver realmente seja uma coisa complicada. E talvez tudo ser tão difícil não seja minha culpa ou minha incompetência. E eu não seja anormal.

Afinal, ninguém me disse, aos 8 anos, que eu podia não querer casar. Que podia não querer ter filhos. Ninguém me disse que eu teria homens perfeitos e que eu não ia querê-los. Ou que eu teria que dizer não quando a minha vontade era dizer sim, sim, sim!

Aos 8 anos, eu não fazia idéia do quão difícil era abrir um vidro de palmito. Que ficar doente não é legal se não houver quem cuide de mim. Que a Barbie representa um modelo de corpo que eu nunca vou ter e que ninguém é feliz pra sempre como contam as malditas histórias pra criança dormir. Que limpar a casa é um saco e o melhor que eu posso fazer é nunca dispensar a diarista.

Eu não fui avisada de que simplesmente gostar do que faz não basta se você não conseguir se sustentar. Que ter um bom salário não quer dizer que eu seja feliz profissionalmente (embora isso eu tenha aprendido só na teoria, visto que ainda não tive um salário realmente polpudo). Que talvez não exista um só cara que possa me fazer feliz, mas vários – ou a combinação de vários.

Nem meus avós, nem a professora da segunda série me disseram que eu podia ter vontade de largar tudo e ir morar em Cuba. Meus pais nunca me avisaram que eu poderia ter vontade de mudar o mundo mas mal daria conta da minha vida. Ninguém me disse que consciente e inconsciente travam uma batalha todos os dias, cada um lutando de maneira diferente por coisas diferentes. Que eu poderia ter medo de me tornar adulta. Que a vida era feita de escolhas que nem sempre eu faria sozinha.

Pelo menos ninguém tentou me fazer acreditar em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa.

Pensando bem, talvez ainda dê tempo de começar a acreditar nisso e desistir de todo o resto.

ninguém me contou…