maio 2004

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Imagem gentilmente copiada do site www.earthmatrix.com

Ela nunca foi boa em Trigonometria. Sempre teve problema em lidar com formas angulares, em aparar arestas e coisas do tipo. Eram horas a fio, durante as aulas, tentando lidar com algo que devia ser lógico.

Eles ensinaram que o triângulo tem três lados. Como calcular a área. O perímetro. Os vários tipos de triângulo. E, no fim das contas, não explicaram o que acontecia quando ela se transformava em um dos vértices da tal figura.

O que fazer quando um vértice tentava expulsar outro do triângulo e transformar tudo numa simples linha. Ou como reagir quando surgisse um novo vértice e a coisa literalmente mudasse de figura. Se lidar com um triângulo já era tarefa complexa, o que fazer com um quadrilátero?

Ela fez várias projeções, de como ia ou não ia ser. E devia se lembrar que a Trigonometria era chata porque tinha regras. E a principal era: não se apaixone.

Mas a familiarização com os catetos fez com que ela relaxasse. E ela quase sucumbiu à paixão. Ninguém explicou que, nesses casos, era impossível traçar uma média geométrica. Ou que, o Teorema de Pitágoras podia não ser solução.

Talvez a saída fosse fugir pro Triângulo das Bermudas. Ou se mandar pra hipotenusa que pariu!

O quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados catetos:

É praticamente físico. A língua começa a mexer, a boca abre, o cérebro não comanda mais nada.

– Hum, você fica muito bonito de preto!

Pronto, tá dito.

Tudo podia ser simples. Era só ficar quieta. Mas nããããão. Eu preciso dizer quando eu gosto. Preciso dizer que sinto falta, que acho bonito com o cabelo preso, que gosto dele de preto. Prática não muito adotada (especialmente entre as mulheres), muitas vezes soa como cantada.

Se eu não falo, aquilo me remói, eu penso o tempo inteiro, eu olho, quero dizer, não, eu vou ficar quieta, não, eu preciso dizer. Conflito de decisões.

É que eu não sei fazer joguinho. Até conheço a teoria, mas a prática me parece impossível. Isso me incomoda. Eu não consigo ficar tranquila. E assusto os caras que são acostumados com a habitual lenga-lenga feminina. Mulher que elogia tá sempre cantando e é sempre puta.

Puá. Então eu sou assim.

Como diz a música: mas que se foda!

{ E aí, neguinho? }

“Hum, meu esmalte tá descascand…”

“Escuta aqui, moça…”

Uma blusa azul. Cabelos desgrenhados. E um buraco preto apontado pra mim.

“…me dá todo o dinheiro que você tiver…”

Era a primeira vez que eu tinha uma arma apontada pra mim. E, o pior, com alguém completamente desconhecido no controle.

“…se você não tiver nada eu te mato…”

Carteira, carteira, carteira. Abre o zíper, maldita carteira, cadê a carteira?

“…se você gritar ou se o sinal abrir você morre.”

Aqui a porra da carteira. Isso, tem dinheiro, graças a Deus. Pega logo e me deixa ir, por favor.

“Tem mais aí, tou vendo.”

Porra, até meu dólar? O que minha vó me deu com as explicações de todos os significados místicos que ela carrega?

“É, me dá tudo.”

Opa, o sinal abriu. Respira, respira. Tem que respirar, mulher, respira! Engata a primeira e sai!

Antes que perguntem de novo: não, o cara não era um neguinho. Era um branquelo filho da puta.

Saldo: 40 reais a menos, chororô e tremedeira…

{ Paca é paca… }

Atrasado porque eu decidi dar fim completamente à internet em casa.

Mãe é mãe, e filha é filha. E, embora eu às vezes inveje relacionamentos em que as moçoilas compartilham tudo o que vivem com as madrecitas, não tenho esse tipo de ligação com a minha mãe. E nem sei se quero.

Só que minha mãe é, com certeza, a mulher que sempre tenta me colocar no caminho de ser uma pessoa melhor – mesmo que à maneira dela. Eu não digo tudo o que penso a ela, nem ela a mim. Mas eu sei, quando paro em frente àqueles olhos castanhos, que ela sabe tudo; e que, mesmo se não souber, não faz a menor diferença.

Porque somos mãe e filha.

Coisas que minha mãe certamente não precisa saber sobre mim:

Quantas pessoas eu beijei. Com quantas pessoas eu fiz sexo. Transei pela primeira vez aos 15 anos, e não aos 19, como ela imagina. Isso não aconteceu com o namorado que ela pensa que aconteceu. Experimentei drogas (e só experimentei, porque elas simplesmente não fazem efeito sobre mim!). Tive dois namorados ao mesmo tempo. Tive namorados que ela nem soube que existiram. Fumei (cigarro) durante um tempo. Tenho vontade de beijar uma mulher. Todas as coisas absurdas que eu fiz por causa de um homem (ver post anterior). Tomei remédios hardcore pra emagrecer. Nem todos os meus amigos são tão bem-comportados como ela gostaria que fossem (na verdade, só uma é, e essa amiga vai saber que se trata dela quando ler isso). Eu comprovei a existência da amnésia alcóolica. O dinheiro que ela me deu nem sempre foi usado para os fins alegados. Eu menti (muito) pra ela.

E o que ela certamente sabe:

Eu estou longe de ser a filha ideal. E preciso de terapia. E a amo demais.

É clichê, mas as mães também são!