janeiro 2004

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{ Amar é…? }

O amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

Acho que ninguém melhor que Luís de Camões descreveu o amor. Embora seja um tanto quanto subjetivo demais. Talvez venha dessa inexplicação que é esse sentimento.

Ninguém sabe de onde veio nem para onde vai quando se acaba. Mas todo mundo sabe quando o amor se instala de mala e cuia.

Às vezes a gente se engana e acha que ama, só porque quer amar. Mas não basta querer. Tem que saber esperar.

Ah, e como a gente espera.

Espera tanto para, um dia, encontrar a felicidade no outro. Para ser chamada para dançar, no meio da sala de estar, ao som do Especial do Roberto Carlos. Para passar todas as noites ao lado de quem se ama, sem se incomodar se ele ronca ou baba. Para beijar de novo e de novo e de novo, sempre com o gosto da primeira vez.

Porque amar é ser feliz a cada pequena coisa que se faz junto ao bem amado. É dar um pedaço de si e receber um pedaço que não encaixa exatamente no lugar… mas que faz um bem danado, melhor até que quando se era inteiro.

Talvez Camões esteja certo em ser subjetivo. Não há como explicar, objetivamente, o inexplicável.

O que é o amor?

Fui levar meu carro pra arrumar (por causa da batida com a senhora-que-acha-que-está-sozinha-no-mundo). E é claro que ele não ficou lindo e perfeito como era antes. É claro que dá para notar que ele foi remendado.

Eu, revoltada, pensei em ir até a casa da dona e exigir uma lanterna e um pára-choque novos. Senti um déjà vu.

Muitas vezes eu já quis ir atrás de um ou outro dito cujo que não olhou para os lados e passou por cima de mim. E enfiar o dedo na cara do gajo e dizer “escuta aqui, chuchu, eu não era assim antes de você fazer isso comigo, faz favor de me dar um coração novo!”.

Mas é claro que ele não me devolveria. No máximo me faria um cafuné rápido e diria que “a vida é assim mesmo, a culpa não é sua, eu preciso ficar sozinho um tempo”. Mesmo que, na outra semana, ele aparecesse agarrado em outra.

Assim vai ser com o meu carro. “Sabe como é, ninguém quer bater em outro carro de propósito, essas coisas acontecem, mas eu não vou te pagar uma lanterna e um pára-choque novos!”.

Tudo bem. Eu já vivo com um coração cheio de riscos. Ter um carro assim não vai ser tão pior.

NOTA DE FALECIMENTO

É com extremo pesar que comunico o falecimento de

Orchídea Brasilienses

que se encontrava sob minha custódia desde Maio/2003. Era propriedade de Alexandre Henrique Pott e teve falência múltipla dos órgãos na última semana. Seu sepultamento dar-se-á no dia em que a mesma secar pro completo.

Acontece nas melhores famílias…

Acho que eu devo ser mesmo muito tança, porque, lembro-me agora, já é a segunda vez que escrevo sobre o que eu não entendo. E quero entender, claro.

– As empresas realmente acham que estão prestando um serviço de atendimento ao consumidor quando colocam à disposição um número de telefone cuja ligação custa R$ 0,29 o minuto?

– Aliás, essas mesmas empresas sentem prazer em desligar na sua cara depois de você gastar três minutos apertando os botõezinhos do telefone, justamente no momento em que eles deveriam transferir a ligação para alguém que – na teoria – resolveria seu problema?

– Como o Detran ainda não considerou a hipótese de incluir teste de Q.I. nos exames de direção (porque, vou falar a verdade, marmota não pode dirigir carro!)?

– Por que algumas pessoas se consideram no direito de dirigir no meio de duas pistas de trânsito?

– Mais que isso: o que faz com que uma pessoa num carro de passeio permaneça na pista do meio quando quer fazer uma curva? Ela acha que dirige um ônibus biarticulado ou uma jamanta?

– O que há com a minha gata, que insiste em arranhar meu sofá novo, mesmo que eu dê uns bons tapas nela?

– Existe alguma coisa errada comigo, visto que eu nunca consigo abrir embalagens de Club Social e sachês de catchup sem destruir a embalagem?

– Quem foi o engraçadinho que deu o nome “abre fácil” a esses sistemas de abrimento?

– Como foi que eu comprei um Suflair que veio faltando um quadradinho?

– O que leva a Globo a pensar que nós acreditamos que Antonela e Marcela foram escolhidas a esmo, apesar da amizade da primeiro com Boninho e da segunda com a esposa do Galvão Bueno?

– Por que ninguém do Big Brother enfiou a cabeça da “Antonela-minha-voz-é-extremamente-irritante-e-ninguém entende-o-que-eu-falo” na privada?

– Como é que eu continuo assistindo a esse programa?

– O que há de errado comigo que, agora que eu tenho as manhãs livres, não consigo postar nada decente?

Por quê?

Semana passada, uma senhora sóbria simplesmente engatou uma ré e estabacou o carro dela no meu. Assim mesmo, nessa simplicidade, seguindo a equação:

Ré + “eu não preciso olhar em espelho algum” = CAPOFT!

Desde então, tenho observado o trânsito da capital paranaense. Atitude bastante difundida, essa de botar uma ré e não olhar quem avança. Sem preocupações, como se estivesse sozinho no mundo.

Curitiba é uma cidade que anda para trás. Literalmente.

Cuidado: neurônios na pista!

{ Não me deixem só }

Eu não quero morar sozinha. Nananinanão. Não quero não ter pra quem dar bom dia. Desde criança, nem um quarto só pra mim eu tive. Hoje tenho meu quarto e minha cama, mas não sei ser só. Eu não sei viver sem ninguém.

Sempre será minha vez de ir ao mercado e fazer café. Nunca mais vou comprar melão, porque ele sempre vai estragar. Vou ter que passar a pedir pizza brotinho. Ninguém vai me ajudar a escolher roupa, amarrar os lacinhos da minha blusa ou fechar meu zíper. Se eu quiser falar com alguém, terei que usar o telefone.

Quando eu for comprar alguma guloseima, nunca mais vou levar mais uma pra minha irmã. Eu não vou mais precisar dizer que eu não gosto de pizza portuguesa. E não vou ter pra quem contar o que aconteceu no escritório ou na faculdade. Não vou poder gritar com ninguém quando estiver com raiva.

E as plantas da casa vão morrer, porque eu não sei cuidar delas. Nunca vai ter ninguém falando pela casa. Vamos ser sempre eu, o barulho da televisão e a internet. E os miados da Liz. Sempre tomar café e almoçar sozinha.

Nunca mais vou ligar pra casa pra saber se minha irmã já comprou pão. Meu celular vai continuar tocando, mas eu não vou mais ver o escrito “Casa” no visor. Ninguém vai me dizer pra comprar ração e eu não vou poder discutir que não vai dar tempo.

Quando eu for dormir, simplesmente vou apagar todas as luzes e ir pro quarto. E ninguém em casa vai dizer “boa noite”. Minha irmã não vai mais esfregar a barriga da minha gata na minha cara dizendo “olha como ela é gostosa”.

Eu não quero ficar sozinha. Mas vou.

O que será ser só?

{ A catequese diária }

Longe de casaaaaaa, há mais de uma semana…

É, começo de ano é sempre assim. Um monte de coisas pra fazer e sem saber por onde começar. Diarista de férias. Sono. Muito sono. Ai ai, tem mesmo que começar a trabalhar?

Nos meus últimos momentos de férias, assistindo ao Fantástico, uma matéria sobre a colonização de São Paulo. Regina Casé, falando sobre catequização, diz que os jesuítas construíram um mosteiro num lugar temido pelos índios. “Para que eles deixassem de acreditar nessas coisas. E passassem a acreditar em outras.”

E de repente caiu uma ficha. Quantas vezes já não fizeram isso comigo? Hoje, neste ano, neste mês, nesta semana? Todos os dias?

E nem estou falando de religião. Penso em coisas que eu achava que eram certas (e por que não seriam?) e tentaram me convencer do contrário.

Já me disseram pra emagrecer, pra engordar, pra jogar no bicho. Pra casar, pra terminar namoro, pra começar a namorar, pra sair do emprego, pra permanecer nele. Quiseram que eu confiasse, que eu abandonasse, que eu vivesse, que eu morresse.

Ah, mas eu não quero ser catequizada. Se é pra acreditar no que ninguém sabe, prefiro eu mesma escolher meu caminho.

E quem sabe?