{ O jeito que as coisas são }

Tenho uma amiga que diz sempre que a cantora Fiona Apple é a mulher mais azarada do mundo, amorosamente falando. Hum. Temos um páreo duro.

Durante duas semanas, eles trocaram e-mails diariamente. No único dia em que ele não a respondeu, ela mandou uma mensagem pelo celular – que ele prontamente respondeu, telefonando e pedindo desculpas. Era um bom relacionamento. Está bem que essas coisas não acontecem, e que são histórias fadadas ao fracasso logo nos primeiros cinco minutos.

Quando não vão ralo abaixo, se transformam em uma daquelas histórias de amor que todo mundo acha bonita. De amores predestinados e de almas gêmeas.

Eles se conheceram no último dia do ano, em um dos lugares mais bonitos em que ela já foi. Uma dessas visões que se pode ficar olhando por horas sem cansar – quando ela repousava o livro sobre o colo e se perdia olhando pra baía ao redor da casa. De vez em quando, o olhar saía do mar e ia parar nele, que sorria.

Devia ter percebido o sinal. Lia a biografia de Clarice Lispector e, talvez, tal qual a escritora, estivesse malfadada a amores que nunca dariam certo.

Naquela noite, uma série de desencontros. Acabou deixando o moço no bar, um desses bares perfeitos para o começo de um romance. Ele continuava sorrindo, mas por alguma razão desconhecida, não se entenderam.

Contrariando todos os prognósticos, no primeiro dia do ano ele bateu à janela dela às 3h da manhã. Queria vê-la antes que fosse embora. Ela não sabia se era o destino tentando corrigir as coisas, mas ao invés de ficar se perguntando, achou melhor aproveitar bem suas últimas horas naquele paraíso.

Foi depois disso que eles se distanciaram. Ela saiu, conheceu gente nova e até recebeu serenata na praia, em uma dessas madrugadas em que se chateou com a cidade e achou melhor passar meia hora com os pés na areia, vendo o mar. Talvez para recobrar um pouco da história daquele primeiro dia do ano.

Pensava nele de vez em quando. E, novamente indo contra as expectativas, encontraram-se de novo no mundo virtual. Foram aquelas duas semanas trocando e-mails. Só que, no real universo moderno, a internet que une é a mesma que afasta.

E ela passou a desconfiar que essas histórias de amor e destino devem mesmo não passar de balela pura. Retomou a leitura de Clarice Lispector. Colocou o CD da Fiona Apple pra tocar.

“I wouldn’t know what to do with another chance
If you gave it to me
I couldn’t take the embrace of a real romance
It’d race right through me
I’m much better off the way things are”
Fiona Apple

É, ninguém disse que ia ser fácil…

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