{ Dois estranhos numa manhã de cor cinza }

Mais um dia cinza, como tantos outros que insistem em tomar conta da cidade. Andando pela rua pela manhã, assim que saio do carro, encaro um senhor maltrapilho, cerca de 50 ou 60 anos, enrolado em um pedaço de manta. Não faz tanto frio, mas a gripe que me derruba parece também tê-lo atingido.

Ele sorri. Aquele esboço de sorriso meio amarelado, envergonhado de rir entre a barba desgrenhada e a desgraça da porta da padaria. Olho em volta. Bairro do Batel, Curitiba. Prédios de apartamentos. Sacadas. Moradores – não, isso parecia não existir.

Tudo absolutamente vazio nos prédios em volta. Estávamos, no nível da rua, eu e aquele senhor. À nossa frente, carros e pessoas disputando espaço. Curiosamente, do primeiro andar para cima, é como se não existisse vida.

Sento-me ao lado dele na marquise da padaria. Os dois agora observando a solidão das sacadas. É verdade, alguém deve viver naqueles apartamentos todos. Mas não se vê ninguém. Olhamo-nos desacreditados.

Enquanto isso, conversamos em silêncio. Eu respiro meu mau-humor da última semana, justo eu, que não sou dada a isso.

Mau-humor.

Não foi porque eu derrubei todo o café na calça logo cedo, nem porque cheguei atrasada para a prova – que, aliás, nem teve. Não foi porque fiquei presa no trânsito ou porque a gripe me deu uma rasteira. Não foi pela insônia, nem pelos pesadelos.

Não foi por nada disso. Foi por um problema com nome e sobrenome, endereço e telefone. Foi por um problema que parece não ter solução.

Continuamos olhando para cima, esperando alguém. Ele entende que me desarrumaram, como quem bagunça uma gaveta. Embaralharam as blusas de frio com as de calor, essas que não são usadas há tanto tempo – seja pelo frio dessa primavera invernal ou pela falta daquele calor que aquece a alma, como na música.

Os olhos dele param de olhar o céu e me fitam por alguns segundos. O olhar me responde que falta o sol. Para estender tristezas e roupas escuras, tirando do armário aquele cheiro de roupa seca à sombra. Concordo com a cabeça.

Voltamos a olhar para o alto. Já não sei se procuramos pessoas nas sacadas ou um vestígio de sol. Mais que isso, talvez a esperança de dar de cara com Deus, acenando e dizendo que tudo vai ficar bem.

De repente, lá pelo quinto andar, uma criança aparece e se deita na rede pendurada na sacada. Seguida pela mãe, que toma o pequerrucho no colo e o acarinha. Olhamo-nos surpresos – eu e um senhor maltrapilho, cerca de 50 ou 60 anos, enrolado em um pedaço de manta. Como se realmente houvesse alguma esperança.

São 40 minutos de conversa silenciosa, até que ele diz: “há a vida e a morte – mas ainda estamos vivos”. E sai em direção a um passante, para pedir uma ajuda para o café da manhã do dia. Levanto, pego a chave do carro e sigo.

Ainda estamos vivos.

Pelo menos por enquanto…

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