{ Ai ai ai }

“Isso só acontece comigo!”. Mentira! Folclore! Balela! Isso acontece com todo mundo. Derrubar café na blusa que acabou de vestir, manchar a camisa branca de molho shoyu, não ter na loja o produto em promoção, a fila sempre andar devagar porque você está nela. Vide “Leis de Murphy”.

Mas tem coisas que – ah, essas não! – não acontecem com todo mundo. Porque existem seres abençoados – e outros amaldiçoados, por que não? Ganhar na loteria não é pra qualquer um. Eu nunca ganhei nada. Só ganhei uma caneca numa rifa, uma vez. Ah, e ganhei um livro péssimo num sorteio da faculdade, mas esse serviu porque eu troquei no sebo por uma porção de livros legais.

Ou seja, restaram, para mim, os acontecimentos malditos. Aqueles insólitos, que ocorrem com uma a cada 2 milhões de pessoas. Por exemplo, quando eu fissurei o osso do dedão do pé brincando de lutinha com um ex-namorado. Mas a maldição que me acompanha teve seu ápice em 21 de novembro de 2001.

Era dia da minha banca, apresentação do projeto final de graduação. Depois de tudo acabado, eu aprovada, perfeito.

Eis que a noite cai e eu vou pra cama. Sono reconfortante. Ai ai ai. Mas aí aparece alguém. Começa a levantar o colchão da minha cama. Eu tentando me agarrar no colchão de casal, mas… eu não dormia numa cama de casal! Eu dormia num beliche! Na cama de cima! Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!

CAPOFT!

Tava sonhando.

Caí do “segundo andar” do beliche – e isso já era realidade, necas de sonho. Lembro da cara do meu primo, sentado na cama ao lado, com cara de “que porra é essa?”. Minha prima entrando correndo no quarto, eu segurando o braço – que doía um pouco. Pedi uma pomada pra passar no pulso. E foi quando descobri que meu braço tava torto! Ai ai ai. Essas coisas só acontecem comigo.

Corre pro hospital. Os residentes lindos. Ai ai ai. E eu com o braço quebrado porque caí do beliche. Ninguém acreditava na idiota que caiu da cama com quase 21 anos. Ai ai ai. Como desgraça pouca é bobagem, depois de ouvir da minha irmã que era pra “dormir que logo passa”, larguei, no dia seguinte à tragédia, 2 mil e tantos reais no outro hospital para operar meu braço. Ai ai ai. Dois pinos. O meu medo de estar de braço enfaixado na formatura. O medo da minha mãe de eu ficar com o braço torto.

Ai ai ai. Lembro que perguntei ao médico que me operava porque é que eles não usavam aventaizinhos como o meu, dos que a gente fica com a bunda de fora. Não lembro da resposta. Ai ai ai.

Tem coisa que só acontece comigo. Pena que não é ganhar na loteria.

Por que só comigo?

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