{ Amor em tempo recorde: seis segundos }

Tempo. Quando eu era criança, queria uma máquina que pudesse acelerar ou retardar o andamento dos ponteiros. As férias e os finais de semana, todos com os segundos demorando a passar. E os dias de aula que chispassem zunindo, para que eu, de novo, pudesse voltar a ter diversão com o tempo em câmera lenta.

Hoje, me atordôo com a idéia dos prazos. Um trabalho para daqui a 15 dias – ops!, agora já são 10 –, será que vai dar tempo? Um almoço rápido: fast food, macarrão instantâneo ou esquentar comida no microondas?

Tempo esse que, dizem, corre impassível, criando em cada um de nós um estoque de lembranças e sensações. Que anda até para quem já morreu, porque quem fica aqui conta os dias que passaram – e é preciso avisar o pessoal do almoxarifado que vem uma nova carga de saudades por aí.

Quanto tempo é preciso para esquecer alguém? Quanto tempo leva pra deixar tudo diferente?

Três segundos. Foi o tempo necessário pra mudar tudo. Ele passou por mim derrubando tudo ao redor – as paredes caindo, os amigos sumindo, as árvores tombando. Três segundos. Nós nos encaramos, os olhos claros dele decifrando os meus, castanhos. Três segundos. Para, em seguida, as paredes se reerguerem, os amigos reaparecem e as árvores se levantarem e tomarem seu lugar de costume.

Inspirei o ar com força, depois de três segundos sem respirar. Não parecia muito tempo aqui nesse mundo, mas naquele, onde os olhos se encontraram, foi o suficiente para quase morrer sufocada. Máquina para acelerar ou retardar o tempo? Para que?

Foi nesse quase nada de tempo que eu voltei a sorrir, depois de péssimos dias. Foi em um vigésimo de segundo que a atmosfera tornou a ficar cor-de-rosa. Esses três segundos me fizeram perder – ou ganhar, é tudo uma questão de ponto de vista – três dias, que deviam ter sido usados para o trabalho, mas eu não consegui me concentrar.

Parece pouco tempo para uma mudança tão drástica. Mas não é. Três segundos é tempo o bastante para apertar o gatilho da arma. Para acertar aquela cesta no basquete e virar o placar. Até gol dá pra fazer nesse tempo – o mais rápido foi marcado por um uruguaio e levou só 2,8 segundos.

E ainda dizem que, para amar, é preciso tempo. Só se for para esquecer. Para se apaixonar por alguém, são necessários só três segundos. Ou talvez mais três, até que ele diga que é casado e me faça ficar boquiaberta por três segundos, sem saber o que dizer.

Do começo ao fim, foram 6 segundos. E ainda dizem que esse tal de amor presta. O mundo não é justo, definitivamente.

“As paixões são como as ventanias que incham as velas do navio. Algumas vezes o afundam, mas sem elas não se pode navegar. (…) Na terra é tudo perigoso, e tudo necessário”.
Voltaire

Ai ai…

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