{ Sobre a mentira: cena única, ponto final }

Introdução:

Clipe de guerra medieval. Cavalos, armaduras. Muito pó. Um rio (sempre tem um rio nas minhas brigas). Não há sangue! Exclamação, exclamação, exclamação.

Corta.

Um bar, uma mesa de sinuca. Quatro bolas na mesa, o taco derrubando uma delas caçapa abaixo. O jogo continua. Reticências. Três delas, como os três pontos que a compõem.

Corta.

Parte 1:

Um lugar qualquer, um dia qualquer. Mundo real, cena 1.

Vamos fazer um acordo. Eu finjo e você faz que acredita. Assim mantemos essa convivência pacífica que faz de nós cidadãos normais e amigos.

Não é mais como antes. Isso não. A magia se desfez depois de algum truque malfeito em que percebi a verdade – não era mágica, era só um disfarce. Ilusionismo, era assim que os profissionais chamavam. Mas eu finjo que acredito e você finge que não percebeu.

Porque eu não sei se é pior mentir dizendo que eu te amo ou que eu te odeio: e as duas são grandes mentiras. Ainda faz alguma diferença você estar ao meu lado, mas eu ainda não entendi exatamente qual é.

Mas finjamos que nada aconteceu, nunca. E que os dias sempre foram felizes – mas não tão felizes quanto aquelas horas. Vamos enterrar tudo como se nada tivesse acontecido, está bem pra você?

Ponto de interrogação, mas, na verdade, tudo o que ela queria era um ponto final.

Parte 2:

Um lugar qualquer, um dia qualquer. Mundo real, cena 2.

Não, para mim não. O que você não entende é que eu nunca te enganei. Não, deixa eu terminar. Eu nunca prometi nada disso que você esperou. Você se iludiu por sua conta. Você inventou a magia, as cartolas e os coelhinhos. Eu nunca disse que ficaria com você, disse? Desde o princípio. É só a química, sabe como? Eu não consigo me controlar perto de você – mas nunca seremos namorados.

Só não ache que é só sexo. Não é. Eu gosto de você…

Três pontinhos – que ele adora e ela não agüenta mais. Nunca mais.

Parte final e pedido encarecido:

Vários dias, várias vezes. Mundo à parte. Cena final.

E é assim que se termina um relacionamento sem terminar. Eu não gosto de reticências, apesar, apesar de ter deixado algumas poucas durante a vida. Sempre preferi os pontos finais, muito mais incisivos. Mais diretos. Se você quiser, depois a gente volta a construir uma frase. Nova. Ou um texto todo. Mas começando em um novo parágrafo.

Agora? Ainda há muitos atos e capítulos e páginas e histórias e letras a serem escritas. E você morreu, pelo menos por enquanto. Permito uma breve reaparição após o capítulo 14 – só pra eu poder te matar de uma vez.

Por enquanto, por favor: permaneça morto. A história agradece.

Não aceitamos vaias, obrigada! :)

Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *