{ Blindagem (e não é a Banda) }

– Uma taça desse bordeaux mais barato e um croissant, por favor.

Ficou sentada à mesa posta na calçada em que ela tanto tropeçava. Coque feito no topo da cabeça, cachecol descendo pelo ombro, quase tocando o chão. Acendeu o cigarro e deu uma tragada profunda, como se absorvesse toda a quietude da manhã sem cor. Para soltar a fumaça em seguida, liberando também um pouco da sua própria coloração cinza.

Era uma mulher blasé. Que não conseguia entender os grupos de adolescentes que passavam lá além, sorrindo e fazendo balbúrdia, mas longe o bastante para não serem ouvidos. Optava por não ver os casais apaixonados que cruzavam sua frente, simplesmente como se não existissem. Olhava através das coisas e das pessoas, com uma cara de desdém que nunca se desfazia.

O garçom deixou a refeição sobre a mesa. Se é que aquilo podia ser chamado de refeição. Passou a engolir o que estava à sua frente, sem prazer e sem fome. Pessoas blasé não precisam de alegria nesse tipo de atividade corriqueira, assim como não precisam para mais nada na vida. Ela não se lembrava da última vez em que dividiu a cama com um homem – não que fizesse muito tempo, mas simplesmente porque não merecia ser lembrado.

Seguiu mastigando a massa folhada do croissant de pastrami, sem se recordar que era seu sanduíche preferido – porque foi o que comeu na primeira vez em que foi ao cinema com seu pai. Continuou tomando vinho, esquecendo que um bordeaux, embora mais vagabundo, tinha sido a bebida daquele encontro. Aquele, que seria o melhor da sua vida se ela realmente se emocionasse com alguma coisa. Ela não lembra de como tudo começou. Não porque estivesse bêbada demais (ela nunca fazia nada demais), nem porque tivesse passado por uma lobotomia. Era só uma mulher blasé.

Uma Catherine Denéuve, deslizando pela rua com seus óculos escuros gigantescos e o cachecol balançando com o vento. Uma pessoa com controle total e absoluto de seus sentimentos, até porque não os tinha.

Caminhou pela rua sem prestar atenção a nada, sem se ater ao pequeno cachorro que quase lambeu sua bota ou ao guardador de carros que lhe ofereceu uma florzinha caída de uma árvore. Entrou em casa sem se importar com o vizinho que a espiava pela fresta da porta, sem se perguntar de quem seria aquele envelope vermelho na sua caixa de correio.

Deixou as chaves e a correspondência sobre a mesa e foi ao banheiro. Abriu a porta do armário atrás do espelho. Ufa. Ainda estava lá.

Num pote de vidro com formol, seu coração. Bem guardado, para o momento em que se permitisse, pela primeira vez, perder o controle. E viver de verdade.

(suspiro)

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