{ Blogando }

Eu escrevi esse texto em 19 de maio de 2016. Ou seja, há mais de um ano. Não publiquei porque não gostei, porque nada tava bom, porque ando meio de birra com esse blog aqui, porque ando meio brigada com esse negócio de escrever e agora me dedico a fazer lista de supermercado, a não deixar as crianças se matarem e a jogar fora coisas guardadas (Marie Kondo ficaria contente comigo). Mas hoje eu abri esse texto e pensei “ah, acho que rola publicar sim”.

Vai que é (mais um) recomeço, né? ;)

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Sabe-se lá quanta gente eu conheci por causa desse blog. Conheci mesmo: encontrei, tomei café, comi rosquinhas, virei amiga, ouvi história da vida, desejei sorte e tudo mais. Tanta gente que eu nem sei mais dizer quem. Alguns tão próximos que eu duvido terem vindo desse lugar tão vago e genérico que é a internet. Teve também aquela galera que eu conheci sem nunca ter visto, mas que eu imagino a roupa que veste, o tom de voz e o tipo de piada que faz na festa de fim de ano da família. Muita gente.

Lá nos primórdios era assim: eu entrava num blog, gostava dos textos, ia na listinha de blogs amigos, começava a ler outro e aí ia parar em outro e em outro (e alguns estão perdidos até hoje na lista dos blogs-que-eu-queria-reencontrar-mas-não-lembro-nome-nem-endereço). Eu gostava desse sistema, mas aí vieram as redes sociais. Você sabe como é: você entra no Facebook* de manhã e, quando vê, já é Natal (com Mark Zuckerberg, essa estrela de Belém, te levando até lá).

Mas aconteceu algo ainda pior: deixou de ser necessário ter um blog se você só queria mesmo dizer “quem vê a tequila que eu bebo não imagina o ponto cruz que eu bordo”. Foi o fim do meu tipo preferido de leitura bloguística: o diarinho. Uma espécie de Big Brother onde as pessoas não gritam, o que é maravilhoso (aliás, acompanhei muitas edições de BBB só pelos blogs, o que também era muito bacana).

A verdade é que nunca mais fiz tantos amigos na internet. Tenho feito o caminho inverso: encontro pessoalmente uma vez, adiciono em alguma rede social e mantenho o contato. “Ah, mas você também quase não escreve mais”, você pode dizer. É verdade. Agora eu uso o Twitter pra escrever posts de até 140 caracteres. Uso o Facebook pra histórias engraçadinhas rápidas. E assim vamos deixando tudo definhar.

Vamos? Não vamos não (eu até iria, porque me dá uma certa preguiça, mas…). A Tina Lopes reuniu um montão de gente legal dessa internet marota e surgiu a Central do Textão, pra reviver um pouco dessa alegria despretensiosa que era encontrar blogs novos e conhecer pessoas. Tem um montão de sites participando, de todos os tipos e assuntos, reunidos num endereço só. Sempre uma leitura fresquinha que os algoritmos do facebook poderiam nunca escolher pra entrar no seu feed.

Eu também tou nessa (e se você lê e nunca deu oi, aparece aí no e-mail/comentários que a gente pode tomar um café). 

Vem comigo: www.centraldotextao.com

*Aliás, desativei o facebook, mas isso é assunto pra outra hora.

— Amor, no que você tá pensando?
— 
Em nada.
— 
Ah, fale.
— 
Em nada, Marcos.
— 
Ah, por que não quer contar?
— 
Tou pensando no meu ex-namorado.
— Hahahaha. Tou falando sério.
— 
Eu também, Marcos.
— 
Ah, larga mão. Falaí, o que que passa nessa sua cabecinha linda?
— 
Tou pensando em como o Alberto era muito mais gostoso que você.
— 
Não quer falar não fala, não precisa ficar inventando história.
— 

— 
Pô, custa contar em que você tá pensando?
— Não.
— 
Então conta.
— 
Essa sua camisa é horrorosa.
— Duvido que era nisso. Fala a verdade.
— 
Tou pensando em como te matar, te enfiar num saco e jogar num rio.
— 
Hahaha, acordou engraçadinha hoje. Sério, em que você tá pensando?
— 
Em nada, Marcos. Em nada.
— 
Tá bom, não fala então. Quer sorvete?

Feliz dia da mentira pra você também.

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Texto originalmente publicado em 1/4/2013 no Tão Simples Quanto, blog que ficava hospedado no portal TodaEla (ambos já falecidos).

 

{ Coisas pra contar }

Ele desliza os dedos pelo piano. Eu estudei piano quanto tinha lá meus oito anos ou coisa parecida. Aulas de piano clássico. Eu achava divertido, mas queria pular os livros de Leila Fletcher e sair tocando blues e jazz, como se soubesse o que era isso na época.

Eu sempre quis que as coisas fossem fáceis, e quando foram eu achei que não eram divertidas o suficiente. É por essas e outras que eu preferi pensar que amor é aquilo que dói, enquanto você se abraça numa garrafa de vinho e ouve as teclas do piano serem acariciadas. Aquilo que faz você chorar baixinho na cama, a cabeça entre os travesseiros enquanto se preocupa com o que os vizinhos vão dizer ao ouvir os soluços.

Que se danem. Amor é aquilo que entra como um saca-rolha bem no meio do peito pra levar um pedaço embora, especialmente quando esbarra com o bem-amado abraçado a alguém no meio da rua. Que faz amaldiçoar o vinho ter acabado e a música não. É Roberto Carlos cantando “a sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo”.

As grandes histórias de amor são sempre tristes. Não há roteiro que suporte a felicidade constante. E eu continuo ouvindo o piano e pensando que deve ser mesmo coisa de fazer dar tudo errado e ter sempre coisa pra contar.

Problemas são a minha especialidade – ao contrário do piano. Acho que “Danúbio Azul” foi tudo o que sobrou dos meus conhecimentos com esse instrumento de corda que é cheio de teclas. E é tão mais fácil ser triste…

Mas hoje cedo, escovando os dentes e ouvindo o piano, eu entendi. Pode ser que o piano não pare de tocar pra você me tirar pra dançar e a gente sair rodando por aí. Pode ser que o amor seja a gente andar de roda gigante sem nem chegar perto do parque de diversões. Sair assoviando na rua com as pessoas olhando e achando tudo muito esquisito.

De repente, amor não é aquilo que dói. Mas aquilo que faz feliz.

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Texto originalmente publicado em13/4/2008, quando este blog era hospedado no Portal RPC.

{ Astrologia }

Mais de um ano depois, se encontraram num café. Lugar aberto, dia ensolarado, calorzinho. Eles só tinham quinze minutos, então ele foi direto ao ponto.

— Por que você me escreveu?
— Porque eu fui alfabetizada, oras. Posso escrever pra quem eu quiser.
— Você entendeu.
— Porque eu fiquei curiosa.
— Mas…
— Não finja que não entende. Você respondeu por algum motivo. Provavelmente o mesmo.

Nesse momento, pensei que ele devia ser de Libra. Como pode tanta indecisão num corpo tão pequeno? Devia ser um tiranossauro rex pra ser digno, em tamanho, de metade de tanta dúvida. Justo comigo, que nunca gostei de dinossauros. Aquele quero-nãoquero-querodenovo-nuncaquis. Argh. Arrisquei.

— Que signo você é?
— Putz, você acredita nisso?
— Só quando eu não tenho mais alternativa.
— Ahm.
— Por exemplo, se o dia tá uma droga, se eu decido se mudo de emprego ou se eu quero saber se um cara vai me ligar. Talvez quando eu fique ansiosa ou entediada o bastante pra acreditar.
— Hoje você acredita, então.
— Não a ponto de ler o da Susan Miller, que é em inglês.
— E qual é o problema?
— Ler em inglês é como andar de bicicleta: posso fazer as duas coisas, mas nenhuma delas me dá muito prazer.
— E o que te dá prazer?

Era a deixa, eu sabia: tasquei-lhe um beijo. O gosto de café era, agora, tão diferente da primeira vez, com todo aquele formigamento alcóolico na língua. Ainda que não seja do meu feitio, preferi explicar:

— Eu não faço isso o tempo todo.
— Beijar pessoas?
— Isso. E escrever pra quase estranhos.
— Você escreve pra estranhos o tempo inteiro.
— Não individualmente.
— Não.
— Não vamos nos ver de novo, vamos?
— Não.

Nunca houve tanta certeza numa resposta. Descobri: libriano não era.

{ Velha }

“Lembra quando nós íamos a casamentos e sempre tinha umas tiazonas dançando esquisito? Nós nos tornamos essas tias”. Eu mal acabei de falar e já vi a tristeza nos olhos dela. Ela nunca vai me perdoar por isso, eu sei.

Faz tempo que eu acompanho o movimento. Começou com os caras da NET, que eu sou obrigada a ver sempre que eu me mudo de apartamento (a cada ano e meio, acho). Quando assinei o serviço pela primeira vez, com uns 19 anos, eles eram sempre mais velhos — os tios da tv a cabo. Há uns cinco anos eu percebi que eles eram mais novos que eu. Notei o mesmo fenômeno com as diaristas.

As referências e piadas que os mais novos desconhecem. Chegar no bar e perceber que todo mundo é mais novo que você.

(Quando eu tinha uns 26 anos, eu conversava com uma amiga sobre não casar e ela me perguntou “até que idade você se vê indo pra balada?”. Eu disse 40, mas não tenho tanta certeza sobre isso agora.)

Entender as consequências e se preocupar com elas. Ou, como disse outra amiga, “antes a gente falava de homem, agora fala de doença”.

Não posso dizer, portanto, que não previ tudo isso. Eu podia ver a idade caminhando em minha direção. Ela vinha mais rápido do que eu esperava pra uma senhorinha. Como quando Alice nasceu e eu quis tirar o piercing do nariz porque eu tinha que me comportar como alguém de 30 anos. Não tirei, mas nunca mais usei aquela minissaia. A gente envelhece e começa a se sentir mal por estar se divertindo, sabe?

Não pode saia curta, nem roupa justa, nem dar vexame bêbado, nem tentar sensualizar. Não pode fazer burrada nem estupidez, tem que ser madura. A diversão é controlada dentro de uma medida específica. E olha que eu só tenho 35 anos (mentira, tenho 34; outra coisa que me faz perceber a reboladinha da velhice, eu nunca mais acerto minha idade).

Então me lembro das senhorinhas franceses nos catamarãs caribenhos, de biquinis, piercings e tatuagens. E puxo pelo fiozinho da memória aquele casal de uns 50 e tantos anos numa pegação fortíssima num bar, quando eu devia ter 29 anos. Prometi ficar como eles. Prometi mesmo. Fica mais fácil quando um moço quase dez anos mais novo se interessa por você (obrigada, moço), mas não acontece sempre. Todo dia, o que tem mesmo, é aquela chapuletada de realidade, avisando que eu talvez esteja velha demais pra isso.

Velha demais. Que se dane.

Eu voltava do dentista com Alice quando um cara, num carro parado no sinal, começa a desfiar um blábláblá pra mim. Eu continuo conversando com ela, mas tenho que parar na esquina pra atravessar a rua. Aí ele vem. Faz a curva o mais devagar que pode. Eu olho pro chão porque, queridão, não sou obrigada a olhar pra ninguém, mas eu quero tanto que ele vá embora que levanto o olhar um pouco rápido demais. Ele tá com a cabeça fora do carro, olhando pra trás. Visão periférica, que inferno.

– Ele disse “parabéns, mãe”, mas você não é mãe dele, né?
– Não, filha.
– Você é minha mãe, né?
– Isso.
– Ele disse porque achou você bonita, né? – e sorri.

Eu queria explicar porque não era aceitável que uma pessoa que eu não conheço passasse num carro e me dissesse que eu sou bonita, mas, se você parar pra pensar, as pessoas fazem isso com ela o tempo todo. E a gente só pede pra ela agradecer. Acabei não dizendo nada.

Uma quadra e meia depois, o cara reaparece. Vai me acompanhando com o carro – eu e minha filha de quatro anos. Vai falando e eu não digo nada.

– Não posso achar bonita?
– Pode, mermão, mas se você começa a seguir as pessoas na rua, pode parecer que você é um psicopata, sabe?

Era o que eu queria ter respondido. Mas só disse “pode”. Eu tive medo de terminar. Gosto de pensar que eu teria completado a frase se eu estivesse sozinha, mas eu não sei se teria.

Meu prédio. Fico na dúvida: se entrar, ele fica sabendo onde eu moro. Se não entrar, então pra onde eu vou? Entro, dou um sorriso meio torto pro porteiro. Chamo o elevador, o carro parado lá fora. O elevador demora, o carro continua parado. O porteiro se levanta, fazendo menção de atender o cidadão, e eu digo “não sei quem é essa pessoa; ele tava me seguindo”. O porteiro para por uns segundos e volta pra cadeira. Eu entro no elevador, o carro continua em frente ao prédio.

Foi só quando o medo passou que eu entendi o exemplo que eu acabei de dar pra minha filha. Um homem pode passar por uma mulher, pode falar coisas pra ela, pode segui-la. E nós olharemos pra baixo e torceremos para que ele não pare, não desça e que tudo fique bem.

Tá tudo errado, minha filha. Desculpa.

{ É isso? Acabou? }

Eu tenho 34 anos. Estou casada. Tenho uma filha. As contas são pagas em dia e eu posso fazer coisas, do ponto de vista financeiro, que seriam impossíveis se eu pensasse na minha vida dez anos atrás. Tenho atividades que eu gosto, eventualmente eu me encontro com pessoas que eu adoro. Então eu me pergunto: é isso? Acabou?

No fim das contas, o que mais eu posso esperar da minha vida? Parece que é isso que eu me questiono todos os dias. Quando eu parei de trabalhar, uns cinco anos atrás, eu achava que o problema era esse. Eu me perguntava se eu devia ter um emprego e sair de casa e ganhar dinheiro. Ou, como dizem alguns, ocupar meu tempo. E passei muito tempo sofrendo porque, sei lá, eu devia saber o que responder quando perguntassem minha profissão. Eu achava que o que me faltava era ter essa resposta.

Hoje eu sei: não tenho um emprego, mas, bem, eu não preciso ter um emprego. Sou do tipo que acha que tudo vai dar certo e, se um dia tudo der errado, eu me levanto e faço o que for necessário (mas isso não precisa ser agora, certo?). O marido acha muito curioso que eu sempre diga que as coisas se ajeitam, mas é algo em que eu realmente acredito. E, ainda que eu não goste, um dos meus mantras é “ninguém aprende nada sendo feliz”, motivo pelo qual prefiro não odiar esses períodos em que tudo dá errado (um dos meus anos preferidos, inclusive, é 2005: o ano mais cagado da minha vida).

O problema, então, não é não ter um emprego. É a falta dessa resposta maior: por que diabos eu estou no mundo? Se eu já atingi o máximo que eu posso ter dessa vida, tudo bem se eu simplesmente morrer amanhã? É só continuar seguindo o baile? Então eu descobri que eu sinto falta da realização. Que eu, antigamente, traduziria em vender meu carro e tentar sobreviver um ano na Europa, trabalhando por comida e lar. Foi um plano que eu nunca realizei porque eu tinha um apartamento em Curitiba. E tinha a segunda faculdade pra acabar. E tinha um emprego. “Não dava” pra largar tudo, passar um ano fazendo sabe deus o quê e voltar fazendo algo ainda mais incerto.

Talvez esse plano, se realizado, tivesse feito eu me achar nesse grande universo de possibilidades. Mas eu fiquei. A minha sensação, ao fim de tudo, é que eu queria fazer alguma coisa relevante. Aquele lance de fazer a diferença, sabe? Então eu penso em ir pro Haiti ajudar a construir casas e em como isso é complexo quando você tem uma criança em casa (talvez sejam só desculpas). E meus amigos me perguntam se eu realmente preciso ir tão longe pra conseguir ajudar alguém. Eu continuo com esse sentimento de impotência. Nessas horas, eu tento me lembrar de um e-mail que eu recebi em 2011, que dizia

“Mas o real motivo desse e-mail é que eu quero te agradecer muito, você foi a trilha de literatura (trilha sonora só que de palavras) dos meus últimos 6 anos de vida.

(…)

Um grande abraço, sem você saber você foi mais que uma terapeuta, você foi a pessoa que escreveu perfeitamente o que eu estava sentindo mesmo antes de eu sentir.”

E eu tento acreditar que escrever aqui é importante pra alguém além de mim (é difícil, eu sei). Se isso aqui é, de alguma forma, significativo pra alguém, talvez eu tenha saudades dos meus amigos. Talvez por isso eu insista em construir uma propriedade pra todos vivermos juntos, naquele conceito de comunidade mais antigo. Talvez eu sinta falta de ter um vizinho pra dividir o bolo de milho (eu tentei no Rio, as vizinhas provavelmente acharam que eu era maluca, mas tudo bem). Talvez eu sinta falta daquele café, acompanhada, no meio da tarde. Daqueles dias em que eu finalmente fico quieta uns cinco minutos, pra poder dizer “se eu morresse, agora, morreria feliz”.

Eu continuo procurando o motivo de estar aqui. Eu me recuso a crer que a vida é isso e pronto. A vantagem é que parei de procurar os culpados e comecei a procurar as razões. Quem sabe ajude.

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Anteontem o blog completou 12 anos de existência. Eu poderia me sentir velha, mas me convenço cada vez mais que eu ainda sou muito adolescente.

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Mudamos de servidor e, por isso, o e-mail também mudou. O endereço direitinho tá ali do lado esquerdo. :)

{ Mini-história }

– Você tá nervoso?
– 
Eu tou. Você não?
– Tou, mas disfarço melhor.

A verdade é que eu não estava mais. Eu sabia que devia estar ali. Estive nervosa até quinze minutos atrás, quando mal conseguia engolir meu café. Até abrir a porta e te encontrar ali. Agora você já tinha sorrido pra mim e eu sabia que não devia estar em nenhum outro lugar do mundo.

Foi há tanto tempo, mas eu podia estar até agora abraçando você com as minhas pernas e beijando suas costas. Sentindo o seu cheiro. O meu cheiro em você. Mas nós sempre soubemos que não seria assim.

Você saiu, mesmo comigo pedindo pra ficar. Eu lembro que foi você quem falou em amor e faz alguma ideia da confusão que isso causou. O que você não sabe é que não precisava dizer que me amava pra eu estar lá, medindo as falanges da sua mão com a minha. Redesenhando seu rosto mentalmente, quase como aquele que eu fiz em carvão. A diferença é que eu te desenhei no papel pra te tirar de mim, e agora eu gravava seus detalhes pra devolver as memórias pro espaço que você deixou vazio.

Eu não o culpo por ter vindo e bagunçado tudo. Você me encheu de música. Talvez você espere que meu gosto musical esteja melhor em dez anos (não vai acontecer). Em algum momento eu acho que o agradeci por vir me salvar. Dias horríveis em que você me fez sorrir como era difícil há muito tempo. Agora você está calmo, eu não. 

Pego os lápis pra te desenhar mais uma vez. Ninguém quer ter a missão de salvar outra pessoa, eu sei.

Dirigia sozinha meio sem saber pra onde ir agora que ele tinha ido embora. Só queria voltar e não podia. Ele ainda estaria lá, mas não pra ela.

Agora havia outra, talvez mais bonita. Talvez mais inteligente. Talvez só alguém menos bagunçada por dentro. Era dia dos namorados e a vontade era ir aos restaurantes apagar todas as velas e cortar todos os balões de coração. Tacar fogo nos motéis. Estilhaçar vidros de floriculturas. Gritar que o amor não existe e vocês estão sendo enganados.

Enganados como ela foi. O amor é o engodo mais satisfatório que existe. Lembrou da forma como ele passava os dedos nas suas costas quando estavam juntos. Pensou em fazer a curva e parar em frente ao prédio dele só pra dizer o que devia ter dito antes. “Eu sei que você me avisou que não estava disponível, mas eu te amo” e ele que se virasse com isso. Nunca foi capaz. Era a primeira regra do não-relacionamento deles: ele não estava disponível.

Ela era do tipo que seguia as regras, mesmo que não gostasse. Então entrou no carro e foi embora sem nem chorar. Ela era do tipo que não fazia cena. Chorava sozinha no carro, enquanto dirigia e pensava em derrubar a porta do apartamento dele. E abraçá-lo e beijá-lo até que ele percebesse o tamanho do erro que tinha cometido. Gostava de acreditar que era possível voltar, ainda que soubesse que ela era uma péssima escolha.

Acabou na garagem de casa, meio sem coragem de entrar e olhar todas aquelas coisas que a fariam lembrar dos detalhes. Ah, os detalhes. Foi com ele que entendeu que podia ser mais feliz. Talvez não merecesse. Talvez fosse um castigo por todos aqueles dias dos namorados com caras que ela nunca amou. Foram tantos que quase achou que nunca poderia amar de verdade. Eles disseram que a amavam e ela respondeu. Só uma mentira inofensiva, pensava. Existe amor se só um dos lados é sentimento? Se o outro não é nada, então não é só um grande pedaço de dor flutuando entre minha casa e a sua?

Eles nunca chegaram a falar sobre isso. Agora havia outra, talvez mais corajosa. Talvez mais merecedora. Talvez ele esteja dizendo o quanto ama a outra nesse exato momento. Talvez a disponibilidade para um relacionamento fosse problema seu, não dele.

Ela entra em casa com a luz apagada, fecha a porta e senta no chão. É dia dos namorados, mas o amor não existe. Não mais.

{ Estejam preparados }

Às vezes as pessoas me perguntam sobre esse negócio maluco que é ter filho. Imediatamente eu digo: é complicado. E eu listo uma grande variedade de problemas e chatices e aporrinhações que a vida ganha quando você bota uma criança no mundo.

Eu falo sobre a rotina da qual os pequenos precisam e que me faz querer morrer lentamente. Sobre aqueles domingos em que tudo o que eu quero é dormir ou ler ou ver um filme e eu não posso porque Alice quer muito brincar ou fazer qualquer outra coisa. Eu explico que tudo fica diferente e que, em alguns momentos, eu penso “mas por quê, meu deus, por quê?”. Se continuarem insistindo, eu ainda posso contar sobre as birras, as preocupações e o dinheiro envolvido. Ou o choro de bebê, as noites sem dormir e a sensação de culpa que eu sinto tantas vezes.

Não me entendam mal. Eu digo isso porque espero que eles estejam preparados. Porque essa maternidade algodão doce, pelo menos aqui em casa, não existe. E tudo que eu ouvi, minha vida inteira, sobre ser mãe ou pai se resume em: é maravilhoso. E é. Mas não o tempo todo.

A verdade é que é meio chato mesmo, especialmente se você quer ser o tipo de pessoa que sabe viver sem os filhos por perto. Porque é bem fácil viver em função deles – mas, para mim, não é prazeroso. É meio obrigatório abrir mão de algumas coisas que faziam sua vida feliz e nem sempre é fácil se entender durante o processo. Eu ainda acho complicado me encontrar no meio desses papéis todos, entre o que esperam que eu seja e o que eu consigo ser. Ou, pior, o que eu quero e o que eu consigo ser. Porque todo mundo sabe criar o filho alheio (opa, Bela Gil manda beijos): eu queria ser uma mãe dedicada e paciente e acho que nunca estive tão distante disso. E eu continuo tentando entender o que é minha personalidade e o que pode ser modificado sem que eu me sinta fingindo ser um personagem qualquer.

Ter um filho pode mudar tudo. E, sabendo disso, esteja preparado. Para ouvir eu-te-amo no meio da noite, quando você leva um copo d’água. Para receber o abraço mais apertado e sentir que dá pra carregar seu amor inteirinho no colo. Para ouvir as respostas mais engraçadas e inesperadas. Para estar morrendo de cansaço na hora de colocar a criança na cama, mas não conseguir sair do quarto depois de vê-la dormir porque a sensação de estar ali é tão maravilhosa. Para perceber como ela é esperta, como as calças já estão curtas, como ela sabe desenhar bonecos palitos e as letras do seu nome. Esteja pronto para ser amado mesmo depois de ter gritado sem necessidade ou de pedir desculpas. Para o momento em que ela gosta da mesma música que você. Para as histórias infinitas sem pé e nem cabeça, mas que fazem ela rir – e você também.

Esteja preparado pra pensar “mas por quê, meu deus, por quê?” e descobrir a resposta cinco minutos depois: porque ela tem o sorriso mais lindo e o cabelo que faz cachinhos nas pontas. Porque ela dá bronca se você fala de boca cheia. Porque ela cobre as bonecas e as enche de beijinhos. Porque ela constrói castelos maravilhosos com os blocos. Porque ela faz xixi sozinha, dá descarga e lava as mãos. Porque ela é tão brava e teimosa quanto você. Porque ela se oferece para cuidar dos seus dodóis.

Ter um filho é muito parecido com aqueles altos e baixos das grandes paixões. Eu amo aquele cretino. Eu odeio aquele cretino. É apaixonar-se um pouquinho mais todo dia.

E aí eu volto a brigar pra ela comer a fruta do café da manhã, senão vai pra escola sem comer nada. Do mesmo jeito que eu brigo todo santo dia. Todo. Santo. Dia. E penso “mas por quê, meu Deus, por quê?”.

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