Era uma menina miudinha. Abraçava a boneca de cabelo desgrenhado enquanto falava.
“Eu tenho um namorado, tia. Um não, eu tenho dois.” Dei risada, ela também. “Eu gosto mais de um, mas o outro veio e disse que gosta de mim, então eu namoro ele também”.
Achei engraçada a lógica filantropo-amorosa. Se alguém gostava dela, como não corresponder? Chegou o prato de sopa e ela encheu a boca. Falou cuspindo a comida. “Mas eu já sei com qual eu vou casar, tia. Eu vou casar com o mais bonito!”
Devia ter uns seis anos. Vida boa: mal sabia ler, já tinha dois namorados. E sabia com qual casar. Faria inveja pra algumas amigas minhas. Tagarelava mastigando, a boneca caída no chão. “O que eu gosto, tia, é da minha classe. Ele me empresta o lápis de cor quando eu preciso e disse que gosta de mim, mas eu não vou casar com ele porque vou casar com o outro”. Danada de ligeira.
Falava mais que o homem da cobra. Matraqueava tanto que não sei como conseguiu esvaziar o prato tão depressa. Eu quis saber do outro. “Ah, ele veio um dia e falou que eu ia ser namorada dele pra sempre.” Catou a boneca do chão. Perguntei se ele era da escola.
“Não, tia, eu vou casar com meu pai. Ele vai me dar um neném, sabia? Ele que disse.”
A sirene tocou e a turma saiu correndo. Nunca mais eu vi a miudinha.
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Olha, li duas vezes.
Tá bem escrito, bem lapidado.
Ainda não sei se entendi direito. Mas se for o que eu entendi, achei sinistro. “… vou casar com meu pai… ele vai me dar um neném…” Se esse lance sinistro for coisa da minha cabeça e essa for só uma história bonitinha e inocente, ok.
Mas se houver um lance sinistro e essa ambigüidade for intencional… bem, aceite um forte aperto de mão, uns tapinhas nas costas e um “mandou bem pra caralho”.
Continue com o bom trabalho.
See you.
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tão bom ser criança…
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Se foi bom como entendi, que foda o texto… E que foda ter que ouvir isso e não poder fazer nada. S e era coisa inocente, ufa, que bom. me diz qual é a deste texto, qual a real. Mas mesmo assim, muito bem escrito, que sutil…


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