Ela parada, olhando para fora. Pensando na vida, nas contas a pagar, nas roupas a lavar, nos homens a esquecer. E então ele apareceu, ombros largos, cabelos pretos, compridos, olhos castanhos. Ela sempre gostou de cabeludos, desde que achou que se apaixonou pelo vizinho cabeludo, lá pelos 8 anos.
E ele com aquele monte de cabelo pronto para ser enroscado nos dedos dela. E com olhos castanhos. Os castanhos são divertidos porque não se perde tempo tentando decifrar a cor, só se fica perdido tentando decifrar o que querem dizer.
Ah, quanto cabelo.
Ele logo encontrou aquela figura parada. Belos peitos, foi a primeira coisa em que pensou. Sabe-se lá por que, no país das bundas sempre curtiu mais os peitos. Valendo a pena, encompridou o olhar e descobriu dois olhos grandes, brilhantes, olhando para ele.
Gostava dos olhos grandes porque se via refletido neles. O que era de certa forma narcisista. Mas de alguma outra maneira não era apenas isso. Voltou a olhar os peitos.
Ele abriu a boca e ela ficou esperando. Geralmente ela dizia tudo, porque era impaciente demais para esperar e escutar. Mas não dessa vez. Parecia que eles teriam todo o tempo do mundo.
Parecia.
O ônibus em que ela estava arrancou, desemparelhando com o dele, que ia em sentido contrário. Nunca mais se veriam. Resignada, ela voltou a pensar na vida, nas contas a pagar, nas roupas a lavar e nos homens a esquecer. E ele continuou pensando nos peitos.

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