As luzes desfocadas. De várias cores, mas a maioria amarelas, vermelhas e brancas. Logo descontraía o músculo dos olhos e eles voltavam a ficar em posição normal. O bruxulear das luzes parava, voltando a ser somente o que eram: faróis de carros, postes e estrelas.
Era assim que ela se divertia quando criança. Brincava de não ver o mundo real, com cores reais e acontecimentos reais. Tudo isso era chato demais. Então ela movia os olhos e perdia o foco das imagens que via. E, em meio às luzes desfocadas, podia ser o que ela quisesse. Astronauta concentrado num ataque intergaláctico, cantora num cabaré, turista passeando em Tóquio.
Só que ela cresceu. E continuou a achar o mundo sem graça. Então, quando tudo dá errado, ela muda tudo o que vê. Às vezes esquece de voltar para a vida real. Continua achando que o cara com quem sonha quer alguma coisa a mais com ela, além de algumas noites divertidas. Acredita que ele pode finalmente descobrir que ela é a mulher perfeita para ele.
Lá no fundo, ela sabe que nada disso é verdade. Ah, mas como queria que fosse. Então continua a desfocar o que vê e a enxergar um mundo repleto de imagens que dançam ao som da música que toca no rádio do carro.
*trecho da música “tá bom”, do los hermanos

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