Há pouco mais de três anos, quando só o que eu sabia era ser filha, eu escrevi sobre o que levei muitos anos pra entender sobre a maternidade. Talvez devesse deixar uma cópia pra facilitar pra minha pequenininha, daqui a uns 20 anos.
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Ela chegava em casa e gritava pela mãe. Se não tinha resposta, corria até o guarda-roupa pra ver se ainda estavam lá os vestidos, calças e casacos daquela que devia ser a pessoa que mais a amava no mundo. Sempre estiveram, felizmente. Foi assim durante algum tempo. Tempo demais, quando se é criança.
As roupas dela sempre estavam lá. A mãe, não.
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Eu não sou mãe. Eu não sei descrever o que é ser mãe. Só sei dizer sobre o que é ser filha.
Devia ser fácil, mas não é.
Ser filha é esperar que alguém a ame incondicionalmente. É querer colo – e ganhar sem pedir. É agradecer pela educação, pelos bons conselhos e por guiar a sua vida. É olharem nos seus olhos e saberem que você está mentindo, mesmo que não queira mentir. Mais que tudo, ser filha é aprender a viver sem isso.
A gente aprende que as mães não vão fugir. Que vão nos apoiar e estar sempre lá. Que vão amar igualmente todos os filhos. E nem sempre isso é verdade. Porque, veja só, as mães também falham. Ao contrário do que dizem as propagandas do início do mês de maio, o ser materno não é essa criatura mítica repleta de amor, bondade e cumplicidade durante as 24 horas do dia.
Mães têm seus próprios problemas. Mães têm contas a pagar, amigas chatas, chefes indóceis, além de suas próprias mães. E filhos não são sempre objetos de satisfação – talvez não sejam durante a maior parte do tempo. Mães são seres humanos, mas a gente não espera que elas errem com os filhos. Só que elas erram. E é um erro que dói mais que qualquer outro na vida.
Ser filha é aceitar a tarefa de perdoar essas falhas. E de, ainda assim, amar sua mãe mais que tudo.
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Texto originalmente publicado em 11/05/2008, quando este blog era hospedado no Portal RPC.