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	<title>chá-tice &#187; 2006 &#187; fevereiro</title>
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	<description>discussões sem sentido a respeito de coisas que não fazem a menor diferença</description>
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		<title>{ It´s only rock´n roll }</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Feb 2006 16:22:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Letícia Simoni Junqueira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Decisão tomada num momento completamente perdido, daqueles dias sem dinheiro e sem amor, em que a gente se pergunta o que diabos está fazendo na Terra. Eu inventei a resposta: &#8220;estou esperando o show dos Stones&#8221;. Eu fui. E ainda não voltei. Segunda, resolvi ver a apresentação do U2 na televisão. Ouvi duas músicas e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Decisão tomada num momento completamente perdido, daqueles dias sem dinheiro e sem amor, em que a gente se pergunta o que diabos está fazendo na Terra. Eu inventei a resposta: &#8220;estou esperando o show dos Stones&#8221;.</p>
<p>Eu fui. E ainda não voltei.</p>
<p>Segunda, resolvi ver a apresentação do U2 na televisão. Ouvi duas músicas e desliguei. Eu ainda não voltei do Rio de Janeiro.</p>
<p>Eu cheguei de viagem às quatro da manhã, tomei banho, fui pra aula, fui trabalhar. Mas ainda estou no show dos Stones.</p>
<p>Continuo meio catatônica, como quando vi Mick Jagger, calça preta e jaqueta prateada, entrando no palco ao som de Jumpin&#8217; Jack Flash. Troquei o óleo do carro hoje cedo, mas sigo ouvindo Wild Horses ao fundo.</p>
<p>A única pessoa que podia me trazer de volta de lá, preferiu me deixar no Rio de Janeiro. Com a imagem do palco gigantesco e de um décimo da multidão que eu acho que consegui enxergar. Então eu continuo no show, olhando para tudo e para todos fixamente, mal me mexendo. Captando o máximo de informação em duas horas. Desviando dos ambulantes e alheia aos gritos de &#8220;três refri é cinco real&#8221;.</p>
<p>Ainda consigo ver a multidão pulando e eu, parada no chão, simplesmente sem conseguir me mover. Eu travei. Continuo travada, até agora. Porque eu estou em Curitiba, mas ainda não voltei do Rio.</p>
<p>Não foi tranqüilo, isso é fato. A aglomeração de espectadores era gigantesca e a dificuldade dos bombeiros em transitar naquele mar de gente era visível. Quase desesperador, eu diria. Foi nesse momento que levaram meu celular, numa onda de furtos embasbacante: praticamente uma tentativa a cada 30 segundos, durante uns cinco minutos. Ufa. E o show nem tinha começado.</p>
<p>A entrada daqueles senhorinhos sexagenários muda tudo. Não vi brigas e não vi roubos. Aliás, não vi nada: só os Rolling Stones. Sexagenários o diabo. Pareciam todos ter 20 anos, inclusive o guitarrista Keith Richards, que assume os vocais em duas músicas. O mundo é roqueiro. Até o ambulante ao meu lado respeita, e grita somente nos intervalos entre uma música e outra.</p>
<p>O show acabou há mais de três dias. Mas não pra mim. Eu continuo lá, na praia. Eu e um milhão de pessoas.</p>
<p>Segunda à noite, tentei assistir ao show do U2 na televisão. Impossível. Todas as imagens se transformavam e eu acabava vendo os Rolling Stones. E eu até queria ter ido pra São Paulo pra ver Bono Vox e companhia.</p>
<p>Não sei quanto tempo vai demorar pra eu fazer o caminho de volta para a vida real. Eu ainda consigo sentir as lágrimas de quando o show acabou e meus amigos incrédulos me perguntaram se valeu a pena.</p>
<p>É claro que valeu a pena. É um show eu assisto há mais de 72 horas, mesmo dormindo. Porque eu ainda estou lá.</p>
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		<title>{ Ouvindo a conversa alheia }</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Feb 2006 02:23:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Letícia Simoni Junqueira</dc:creator>
				<category><![CDATA[chá-tice blogger]]></category>

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		<description><![CDATA[Não é bonito, eu sei. Nada bonito, como diria minha mãe. Mas o fato é que escutar a conversa dos outros pode não ser educado, mas muitas vezes é bem educativo. Ou, na pior das hipóteses, divertido. Ela entrou no ônibus e fez questão de sentar próxima a um casal de namorados um pouco afastados. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não é bonito, eu sei. Nada bonito, como diria minha mãe. Mas o fato é que escutar a conversa dos outros pode não ser educado, mas muitas vezes é bem educativo. Ou, na pior das hipóteses, divertido.</p>
<p>Ela entrou no ônibus e fez questão de sentar próxima a um casal de namorados um pouco afastados. Com experiência no ramo de prestar atenção no papo alheio, sabia que namorados melosos raramente rendem mais que um &#8220;ah, amor, eu te amo&#8221;, &#8220;meu biluzinho lindo&#8221; e &#8220;oh, vou ficar com saudade essa meia hora sem você&#8221;. Gostava dos que estavam de cara virada, porque significava uma daquelas discussões de relacionamento extensas, com argumentos furados e entretenimento pra quem escuta.</p>
<p>Ficou lá, esperando. E nada. Nem uma só palavra. Tinha vontade de se virar e pedir para que conversassem e resolvessem os problemas, &#8220;onde já se viu um casal tão bonito assim, brigado&#8221;. Os dois se levantaram e desceram no ponto seguinte. Nem um beijinho. A coisa devia ser séria.</p>
<p>O lugar logo foi ocupado por duas senhoras muito faladeiras.</p>
<p>&#8220;Ah, e viu que o Seu Ademar faleceu, coitado?&#8221;.</p>
<p>&#8220;É verdade, um homem tão bom&#8230;&#8221;.</p>
<p>Pausa. Uns dez segundos de silêncio meio incômodo, a última continua: &#8220;é, mas eu ouvi dizer que ele tinha um caso com a moça que serve lá no bar, será que é verdade?&#8221;.</p>
<p>&#8220;Ah, eu acho que é, sempre percebi que ele ficava olhando demais pras reboladas dela&#8221;.</p>
<p>&#8220;Coitada da Dona Judite, um homem safado desses dentro de casa.&#8221;</p>
<p>&#8220;Coitada nada, agora ele morreu mesmo! Bem feito pra ele.&#8221;</p>
<p>Em pé, junto à janela, duas meninas por volta dos 17 anos.</p>
<p>&#8220;Mas é um cachorro mesmo. Ai, se eu pego! Eu mato!&#8221;</p>
<p>Observando a cena, ela se perguntou se as meninas novas também conheciam o Seu Ademar. Mas depois pensou que não, afinal, esse agora estava falecido e já era poupado o esforço de matá-lo.</p>
<p>Ela olha pra frente. Entra no ônibus um homem por volta dos 30 anos, camisa e calça social. Conversa com um rapaz pouco mais novo, por volta dos 25.</p>
<p>&#8220;E isso tudo é coisa do diabo! Que a mulher que tem Satanás no corpo atenta o homem, que tem que ser bravo e resistir. Mas a culpa é dela, em primeiro lugar, porque instiga a luxúria num homem sério e trabalhador.&#8221;</p>
<p>Pronto, até advogado o falecido Seu Ademar já tinha achado. A culpa era da moça do bar, veja só. Aquela provocação ambulante.</p>
<p>Na verdade, ela descobriu logo depois que o tal homem que falava do capeta tentava argumentar seu próprio pecado, numa comparação meio manca com a história de Adão e Eva. Mas a culpa não era dele, isso não. Nem deveria ser do Seu Ademar.</p>
<p>As senhoras continuavam no papo animado, e ela chegava perto do ponto de descida. Levantou-se, pronta para descer. Mas antes de saltar, interrompeu a conversa das mulheres e mandou os pêsames para Dona Judite. Coitada.</p>
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