Quanto tempo da sua vida você passou estudando para uma prova em que se ferrou? Quantos dias vocês esperou que o telefone tocasse – e ele não tocou? Calcule as horas jogadas no lixo.
Nesse período, você poderia ter ido ao parque, deitado na grama e olhado pro céu. Poderia ter contado as estrelas, visto as formigas passeando com folhinhas nas costas, feito um bolo ou lido um livro. Mas não. Você podia ter dito a alguém o quanto gosta dela, podia ter dormido na rede e ter brincado com o cachorro. Eu nem tenho um cachorro para brincar, mas brincaria com meu gato.
Entretanto, ontem optei por estudar. Antes tivesse feito qualquer outra escolha.
Foi pensando nisso que cogitei a possibilidade de largar a faculdade. Já tenho um curso superior, não preciso de outro. Enquanto eu me divido entre as várias obrigações, o céu continua com nuvens e estrelas, as formigas continuam com suas folhinhas nas costas, a rede segue balançando com o vento. E eu?
Eu deixo tudo passar para cuidar das derivadas e integrais que eu não entendendo e não quero entender (a não ser para a prova). Sigo fazendo coisas das quais nem sempre me orgulho e que nem sempre me dão prazer. Calculo quanto tempo passei em aulas que eu não suporto. E só o que eu queria era sentir o vento, a umidade da grama entre os dedos dos pés, a joaninha fazendo cócegas no meu braço. O afago no cabelo, um bom filme no cinema, aquele cd tocando.
Talvez minhas últimas escolhas não tenham sido as mais acertadas.
*Poesia da Cecília Meireles, que eu posto logo abaixo.
Ou Isto ou Aquilo
Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Cecília Meireles

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