Não sei bem como tudo começou. Só lembro das palavras do dia em que o conheci: “que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. E dura, até hoje.
No começo era difícil definir nossa relação. Durante anos, extasiei-me com tudo o que sabia e dizia. Podia passar horas na sua presença, sem dizer nada, boquiaberta com tanta poesia. Mesmo quando falava das coisas mais simples da vida, trazia um quê de maravilha.
Com o tempo, foi ficando cada vez mais difícil guardar toda essa admiração só para mim. Fui, aos poucos, contando aos outros o quanto o amava. Hoje, muita gente sabe. E eu me orgulho de tê-lo sempre comigo, mesmo quando só na memória.
Domingo é uma data especial para nós. Ele faria 90 anos. Vinicius de Moraes, o poetinha que eu sempre quis conhecer, mas que não me esperou e partiu antes de eu dar a cara no mundo.

Soneto do maior amor
Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.
E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.
Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo
Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.
Vinicius de Moraes
Oxford, 1938


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